segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

OS MENINOS DA AVENIDA DA PAZ por Fátima Almeida (repórter)

Houve um tempo em que a vida, em Maceió, girava no entorno da Praia da Avenida. Por lá foi instalado o Porto de Maceió, reforçando o crescimento da indústria canavieira; por lá cresceram o centro comercial e a povoação da cidade, com grandes casarios e palacetes. Cadeiras nas calçadas, famílias conversando, crianças brincando na rua ou na areia da praia, crescendo e sonhando com os embalos do Clube Fênix Alagoana.


Naquele tempo, nas décadas douradas de 50 e 60, a Avenida da Paz era o “point” da juventude de Maceió. Jatiúca não existia e a Pajuçara era apenas um projeto de expansão urbana à beira-mar.

Todo mundo descia para a Avenida em
busca de lazer – fosse para se aventurar nas casas noturnas do Jaraguá; para apreciar o pôr-do-sol no coreto; ou, simplesmente, para curtir o clima da praia ou um simples e refrescante banho de riacho.

Riacho? “Isso mesmo. Naquela época, o riacho Salgadinho, que hoje arrasta a poluição até a praia, chegava limpinho no seu encontro com o mar. E o banho, depois da praia, do futebol, era delicioso”, recorda Américo Peixoto Lima, o Lelé Lima, um dos meninos que cresceram naquela avenida, onde, apesar do burburinho, também moravam a tranquilidade e a paz.

As brincadeiras que ficaram no passado

No dia da entrevista, os “meninos” também não conseguiram se apossar do coreto, como faziam antigamente. Havia outros inquilinos no local – moradores de rua, alheios à movimentação daqueles antigos “donos” do pedaço.
Mesmo assim, Lelé, o mais revolucionário da turma – que chegou a ser preso na época da ditadura militar – avisa: “Esse coreto era fundamental nas nossas brincadeiras. Ele é especial e faz parte da nossa vida. Já tiraram quase todas as características da nossa Avenida da Paz. Se inventarem de tirar o coreto, a gente vai intervir e acampar aqui na frente para impedir”.

Como os novos moradores não abriram “as portas”, o jeito foi mesmo conversar e fazer as fotos ali mesmo, na praça, ao lado do coreto.

“Tiraram até a paisagem. O coreto foi feito para apreciar a praia, o mar. Mas hoje tem esse monumento – Memorial da República –, colocado bem aqui de maneira absurda”, reclama Lelé, olhando para o poente. “Ainda bem que não podem tirar o sol”.

A liberdade da adolescência

Mas eles não foram meninos a vida inteira. Cresceram e conheceram as “madrinhas”, responsáveis, na época, pela iniciação sexual dos garotos.

Uma delas ficou guardada na lembrança desses meninos. “A Nega Odete foi a primeira mulher a se libertar em Maceió. Era uma mulher livre, fazia o que queria. Todos os dias, ela escolhia um estudante para amar, livremente, na areia da praia. E não cobrava nada por isso”, contam eles, quase que numa só voz.

Até com ela, hoje com mais de 80 anos, os “meninos” conseguiram restabelecer contato. Há uma semana, Odete mandou um recado: um pedido de ajuda financeira para uma cirurgia. Arrecadaram o dinheiro entre eles e mandaram. “Pelo menos 50 anos depois, estamos pagando pelos serviços prestados na juventude”, brincam eles, entre si.

Mas eles lembram, também, os cabarés da época – a boate Areia Branca, do famoso Mossoró, que, apesar de localizada fora do circuito da Avenida da Paz, era bem frequentada pela juventude da época – e as boates de Jaraguá.

Como “azeite” para a vida adulta, contos de memórias

Veio também a vida adulta, a profissionalização, o casamento, a família, e os meninos se separaram. Cada um seguiu seu rumo, até o reencontro, há quase 10 anos, e, desde então, mesmo os qu
e moram distante estabelecem contato, colocando “azeite” na velha e boa amizade.

“Esse livro traz parte da história de Maceió, contada por pessoas que viveram essas histórias. Fala de como viviam as pessoas, de como era a cidade na época, dos verdadeiros valores que a gente cultivava, como a amizade e a alegria de viver”, diz Paulo Ramalho.

“É um tributo à amizade, recheado de fatos que fazem parte da história da cidade, das memórias de um tempo que não volta mais; de uma parte da cidade que teve seus anos de glória, no entorno da Avenida da Paz. Podemos dizer que vivíamos no paraíso, e que o nosso compromisso era com a felicidade. Fizemos e vivemos muitas histórias”, diz Américo, destacando que muitos dos “meninos” ficaram de fora dessa edição, e muitos ainda querem contar outras histórias.

Leia mais na versão impressa

FOTOS DE AILTON CRUZ (fotógrafo Gazeta de Alagoas)

GAZETA DA ALAGOAS - 25 de dezembro de 2011 - DOMINGO

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

1o. BEIJO DE CACÁ DIEGUES FOI NO CORETO DA AVENIDA

Viajando de Maceió para o Rio deparei-me, na revista da GOL, com uma reportagem AMOR por Maceió, com Cacá Diegues. Ele escolhe a Avenida da Paz como a principal visita de Maceió, porque foi no coreto1ue ele deu seu primeiro beijo. Também isso aconteceu comigo, um dos primeiros beijos namorando sentado no pequeno degrau do coreto. Podemos concluir então que o coreto era afrodisíaco, e infelizmente não botamos isso no nosso livro. Hoje o local é broxante graças aos nossos honrados administradores públicos.
Abaixo a reportagem (clique na figura para aumentar).

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

DÁDIVAS E PRENDAS NATALINAS: - CELEBRAÇÕES, CULTOS E TESTEMUNHOS por Murillo Mendes

1. Na última sexta-feira, fez-se em realidade luminosa, um encantador livro de relatos e de experiências, colhidos ao longo de uma época imorredoura que, ainda, se expande, impregnando a alma de quantos a desfrutaram na varando atlântica da Avenida da Paz, sob o pálio da estima e da verdadeira amizade. Uma construção literária que exalta uma adolescência/juventude forjada sem a rigidez de regras draconianas e castradoras; consumada em liberdade, embora obediente e em harmonia com os postulados familiares então vigentes, que não os oprimia, imobilizando-os.

“Meninos da Avenida”, o livro aqui festejado, expressa a saga da formação de jovens adolescente, o eco de sua felicidade, o companheirismo ousado e fértil que consagrou um logradouro e que destaca a felicidade de uma época em que se fizeram prontos para os enfrentamentos existenciais. Trata ele, na verdade, do breviário avenidense; uma narrativa compartida, coletiva por excelência, de fatos acontecidos, semeados e germinados no terreno alvissareiro da juventude, cujos frutos, agora maduros e saborosos, são colhidos para transformarem-se em livro, para perpetuá-los, evitando que se percam nos desvãos imperscrutáveis do tempo passado.

Não se trata, pois, de um livro fantasioso que alberga situações irreais, ou refere-se a pessoas imaginárias; nele, estão narrados fatos reais, experiências de pessoas vivas que se nutriram em uma aura benfazeja, para se converterem em cidadãos válidos e operantes. Os meninos que habitaram a Avenida da Paz e adjacências, como, de resto, os jovens contemporâneos que amavam a vida, não viam o mundo em que estavam inseridos como algo estático, completo e acabado; sabiam, de modo empírico, é bem verdade, como corolário de seu inato sentido de completitude, que teriam de lutar pelo seu aprimoramento, pela elevação de sua justeza e de sua equidade; para fazê-lo mais fraterno e feliz, aberto a todos, acolhedor de todos...

Contando estórias, relatando experiências juvenis, “Os Meninos da Avenida” fortalece, em todos nós, a certeza de que a felicidade existe e é possível... E nos ensina que, para desfrutá-la, não precisamos de muito; basta que saibamos colocá-la ao alcance de nossas possibilidades. E, assim, eles fizeram e está registrado na autenticidade de seu livro. Parabéns, avenidenses! A lição é edificante e a festa que lograram realizar foi inspiradora e emocionante.

2. No sábado recém-passado, ainda em comunhão com a mágica natalina, significando uma simbiose perfeita e amena, edificada por jovens briosos, nos altiplanos do Farol, realizou-se o Encontro de Confraternização do Palmeiras, com a presença de mais de meia centena de seus sempre joviais integrantes. Foi, por assim dizer, uma festa de celebração à harmonia entre pessoas, à estima entre companheiros que se mantêm unidos e solidários, afetuosos. Mas, também, evocativa de um culto à interação entre o ser humano e a natureza, justo que se materializou no entorno lagunar, emoldurado por sua inspiradora paisagem.

Foi, em sua concretude, uma majestática exaltação aos sentimentos que agregam e elevam, uma comemoração que nos distinguiu e marcou, enquanto seres inteligentes. A alegria tomou conta de todos, criando um ambiente verdadeiramente fraternal. Nele, foram compartidas as amenidades que povoaram a afortunada juventude palmeirense; lembrados e enobrecidos os tempos criativos que a fizeram operante e válida. Na verdade, essa comunidade sabia o que queria; sabia somar-se em aliança, para não se deixar afetar pelo áspero do egoísmo avassalador. Enfim, uma contagiante reunião festiva e luminosa.

3. No crepuscular desta crônica, cumpre-me o elogio à juventude raiolina que vivi, intensa e plenamente, no território livre da Praça Raiol. Expresso-a na abordagem poética que segue:

Juventude na Raiol: Um tempo já distante/ Aos nossos olhos/ Tão bem vivido/ Tão bem haurido/ Ainda íntegro, constante/ Em nosso espírito / / Tempo inovador, eloqüente/ Singular, construtivo/ Convergente/ Ainda vivo em nós.../ Felizmente / / Por isso,/ Fulcro de nossas emoções/ Reverenciado, presente/ Em nossos corações/ Jamais esquecido/ Descartado ou ausente/ credo de nossas celebrações / / Tempo alentador, querido/ Embora decorrido/ Não se fez ido/ Na seletiva corrida/ Na inclemente luta da vida / / Halo renovador/ Força incontida, ardor/ Energia inesgotável, criativa/ Substância essencial da vida/ Ínsita em todos nós/ Aureolando nossa diuturna lida.

O JORNAL - 20-12-2011

sábado, 3 de dezembro de 2011

ENCONTRO DEZEMBRO 2011 - no BARROCO


Encontro no Restaurante Barroco - sexta dia 2-dezembro-2011 Tonho, Cuca, Betuca, Carlito, Lelé, Ricardo, Guilherme, Waldo, Paulo, Quico, Mané Ramalho, Eurico, Aderbal Jacaré.
Foi distribuído um exemplar para cada participante do livro MENINOS DA AVENIDA. (1a. tiragem)





terça-feira, 29 de novembro de 2011

CAMINHAR BEM PELA VIDA por: Milton Hênio

Já estamos no final de novembro e assistimos a corrida célere do tempo. Particularmente, apesar dos meus 74 anos e 49 no exercício diário da medicina, procuro sentir dentro de mim as portas continuarem se abrindo, apesar de estar no entardecer da vida.

No passado, a imagem de uma pessoa com 60 anos era de alguém desanimado, solitário, sentado em uma cadeira de balanço ouvindo um estridente radinho. Era essa a imagem dos nossos avôs. Os tempos mudaram. O envelhecimento é uma das palavras que sofreu mais modificações nos últimos 10 anos.

Começamos a envelhecer desde o momento em que saímos do útero materno. Cada dia é menos um dia. Hoje vemos inúmeras avós nas academias de ginástica dando verdadeiro show de juventude. E homens com 80 anos praticando esporte e natação como se fossem jovens. Isso é notável. Em todos os tempos o ser humano sempre se preocupou com sua longevidade e aparência. Conta-se que Cleópatra, no Egito, tomava banhos diários de leite para manter-se jovem e com pele alva.

No passado ouvíamos dizer com frequência que o mundo era dos jovens. Hoje, nos tempos modernos, os idosos estão sabendo se cuidar realmente.Diz a OMS que atualmente 870 mil pessoas completam 65 anos a cada mês no mundo. A mesma instituição revela que o mundo terá 1,3 bilhões de idosos até o ano 2040. No Brasil em 2007 tínhamos 11.427 brasileiros com idade acima dos 90 anos. São dados do IBGE.

À medida que passamos dos 50 anos nossa força muscular vai caindo em consequência da queda de hormônios. Nossos neurônios também vão sendo eliminados. É preciso, portanto, ativá-los. Caminhada, respirar oxigênio puro, leitura, bom humor, tudo concorre para sua caminhada tentando alongar o máximo possível esse percurso que se chama vida.

A vida é uma lição de efeitos e contrastes. Todos nós esperamos que as coisas aconteçam num futuro próximo esquecendo que o momento mais poderoso para que as coisas ocorram agora, é hoje. Acordar bem todos os dias é um grande salto na transformação da caminhada em sua vida. Sorria, brinque, tome seu banho de mar, enfrente os obstáculos com altivez. Mexa-se, abandone a preguiça, olhe-se no espelho e veja o melhor de você.

Lembre-se que a verdadeira beleza física e sua longevidade dependem do equilíbrio entre o externo e o interno, isto é, entre o corpo e a mente. Veja bem: a verdadeira idade é a que você quer ter.


GAZETA DE ALAGOAS - 27-11-11

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

MOSSORÓ por Gilca Cinara

“Teve época que tínhamos mais de 100 mulheres perdidas dentro da boate”. Se recorda o filho do famoso Benedito Alves dos Santos, o “Mossoró”, sobre os anos de grande movimentação na Boate e Churrascaria Areia Branca, consagrada o melhor prostíbulo de Alagoas, nos anos 70 e 80, no bairro do Canaã, em Maceió. Aos 65 anos, o aposentado Alberto Nascimento Santos, mesmo contando que está com a memória fraca, ainda traz boas lembranças dos anos dourados do Areia Branca.Entre suas lembranças, “Roberto”, como é conhecido, relata o dia em que deixou o bairro do Jaraguá, ao lado do pai para montar o novo negócio na parte alta da cidade. Benedito Mossoró deixou a sua profissão de pintor para se tornar dono de um bar diferente. O primeiro estabelecimento, onde conseguiu uma grande parte da clientela, foi no próprio Jaraguá. No bairro, permaneceu por longos anos na Rua Sá e Albuquerque, até o governo da época determinar o fechamento dos prostíbulos, em 1967.

“Quando fechou o Jaraguá, meu pai ficou sem saber para onde ir. Ele tinha esse terreno aqui no Canaã, e resolveu colocar a boate aqui para fugir da fiscalização do governo. Ele labutou muito para construir, mas não pensava que o estabelecimento ganhasse tanta fama. Ele cismou em entrar para o ramo”, recorda.

O apelido Mossoró foi dado pelos fregueses, devido ao nome da boate Areia Branca, que lembrava as dunas de areia na cidade de Natal. “O povo foi chegando e ele foi ganhando nome”. Ao falar sobre o pai, Roberto o classifica como uma pessoa “bacana e ao tempo reservada”. “Ele sempre procurou o lugar dele. A maior parte do povo gosta de criticar donos de boates. Muitos homens gostam, mas tem mulher que não gosta deste tipo de lugar”, afirmou aos risos.

O prostíbulo ganhou tanta fama, que virou ponto turístico em Maceió. “O povo que frequentava não era de baixa renda. Se citarmos nomes em público a família não aceitará e vai querer criar problemas”, disse Roberto fazendo referencia ao grande número de personalidades políticas que eram fregueses do Mossoró. A casa também foi visitada por personagens como Altemar Dutra, Vera Fischer, Martinho da Vila e outros.

Das luzes às ondas musicais por todo o Brasil
Rapidamente, as luzes e as mulheres que animavam o local ganharam fama nacional. A boate, inclusive, virou tema de música do sambista Martinho da Villa e do alagoano Djavan.
“... Vou tomar uma azuladinha
E vou convidar vocês
Pra comer uma agulinha
Lá na Praia do Francês
E um casadinho de feijão
Lá na casa do Seu João
E depois vou vadiar
Com as meninas em Mossoró
Só em Maceió
Só em Maceió
É que se pode vadiar
Com as meninas de Mossoró
Com as meninas de Mossoró
Alagoas, Alagoas
Há Alagoas...”, escreveu Martinho da Villa.
Essa situação não serviu para melhorar o local. Mesmo com o passar do tempo e o crescimento econômico, a rua mais movimentada do bairro ainda continua com o aspecto encontrado por Mossoró, em 1969: esburacada, sem saneamento e pavimentação. No local erguido o palácio do Rei da Noite, hoje é preenchido por residências de aluguéis, divididas entre os três filhos. Em um desses imóveis reside Roberto, com a mulher e o neto.

“Depois que ele faleceu passei um ano à frente da boate, mas não agüentei. Os impostos eram muito pesados, na época pagava R$ 1.200 só de energia para tirar esse dinheiro vendendo cerveja. O povo já tinha parado de consumir as bebidas mais caras, onde eu conseguia tirar mais lucro. Desde então continuei morando aqui (Canaã) há mais de 45 anos. Agora penso em deixar o bairro, o que tinha que perder aqui eu já perdi, perdi meu pai”, se emociona Roberto.

Com a fama do Mossoró e a movimentação na região ainda deserta, começou o crescimento do bairro do Canaã, hoje habitado por mais de sete mil moradores. A população, em sua maioria, é oriunda do Interior. Muitas pessoas que trabalharam no Areia Branca fixaram residência no bairro, após o seu fechamento, em 1995. Benedito Mossoró faleceu no dia 14 de dezembro de 1994, vítima de um infarto fulminante. Com a sua morte, o Areia Branca resistiu menos de um ano com as portas abertas.

Na época do sucesso, outros prostíbulos se instalaram ao redor do Areia Branca, que se destacava pela sua organização e pela “excelente” seleção das mulheres. “Quem tinha dinheiro freqüentava o Areia Branca duas, três vezes na semana. Quem não tinha se contentava com outros, como o Bar do Paulo, a Sandra, Eliane e outros cabarezinhos que tinham por lá”, lembra um freguês assíduo do Mossoró, que prefere não se identificar para não ter mais problemas com a esposa.

Para o presidente da Associação dos Moradores do Cannã, José Bonifácio, o fundador do bairro foi Benedito Mossoró. Com o tempo, fábricas foram instaladas no local, os terrenos começaram a ser invadidos por trabalhadores, que deram o nome de sua cidades para as ruas. “Satuba, Porto Calvo, Anadia, Maragogi, Quebrangulo, Jequiá e antiga Rua Camaragibe são os nomes batizados das sete ruas do Canaã”, conta.

“O Canaã para nós hoje é uma cidade. Tem muito gente que saiu daqui a época quando começou o crescimento do bairro, que hoje quer voltar e não tem mais condições. O bairro se desenvolveu muito. Hoje temos uma população de mais de sete mil moradores”. Mesmo com todo o desenvolvimento, Bonifácio lamenta a discriminação da área onde funcionavam os prostíbulos, esquecida pelo poder público.

A noite de gala no Mossoró
O aniversário da boate era comemorado em grande estilo. Todos os anos, Benedito Mossoró oferecia uma festa para sua clientela, regada com muita bebida, música e o glamour das suas meninas. Todos seguiam o estilo elegante do grande anfitrião da festa, que tinha sua preferência pelo terno branco, marca registrada do mais conhecido boêmio alagoano.
“A festa era com todo mundo de sapato alto e mulheres com vestidos longos. A fila de carro era grande, a cerveja era de graça, de 50 a 100 grades de cerveja. A festa começava no final da tarde e antes das 22h a bebida já tinha acabado. O povo devorava tudo. Todo ano ele dava essa festa. Ele era tão ruim, que ele fazia isso. Ele ajeitava muito os clientes, ai você tinha que voltar, ali é bom e vou ter que voltar”, disse Roberto

As meninas do Mossoró
A beleza das meninas do Mossoró encantava quem por lá frequentava. “Mulheres selecionadas a dedo”, riu o filho do empresário da noite. E assim que muitos fregueses da época qualificam as meninas. Para trabalhar no Areia Branca não bastava apenas ser bonita, mas tinha que saber agradar ao cliente. Tinha que ter molejo.

Apesar da renovação das meninas ser sempre constante, muitas histórias de amor nasceram com as visitas habituais ao estabelecimento, como é caso do aposentado Cícero Lima. “Eu me apaixonei por uma das meninas chamada Daniela. Por pouco não me casei com ela, como fez o meu primo que casou com outra menina do Mossoró, e construiu uma família com três filhos e netos”. O trecho relatado por Cícero se assemelha a tantos e tanto casos. “Hoje muitas das mulheres que trabalharam no Mossoró estão casadas e são mães de família”, conta, relembrando que elas vivem apenas nos sonhos dos antigos clientes.

Uma pessoa em Recife se encarregava em trazer as meninas das cidades de Aracaju, Caruaru, Recife, Campina Grande até Maceió. Algumas delas, como já trabalhavam no ramo há muito tempo, chegavam ao Areia Branca sozinhas, acompanhadas apenas ‘da cara e da coragem’. Todas elas dividam os quartos construídos por Benedito Mossoró. Em época de grande movimento duas a três mulheres moravam no mesmo quarto. “Ele (Mossoró) ia buscar também. Mas na época ninguém podia trazer duas, três mulheres no carro não que a Polícia pegava, porque sabia que era tráfico de mulheres”, disse Roberto.

Bem apresentáveis, elas não desapontavam nenhum cliente que as convidavam para também fazer companhia em festas sociais. “Lembro-me que nos finais de ano, eu e um primo pegamos cinco mulheres do Mossoró e levamos para uma festa no Clube Fênix. Elas eram muito bonitas, educadas e bem vestidas circulavam normalmente em todo lugar. Só sabia o que elas faziam quem lá frequentava. Na rua ninguém comentava nada, pois quem via achava que o cara estava acompanhado da esposa. Isso aconteceu outras vezes, inclusive na festa de formatura do meu primo no Iate Clube. Elas se comportavam melhor que certas mulheres donas de casa que quando enchiam a cara ficavam loucas nas festas”, contou um empresário que preferiu manter-se no anonimato.

Poucas confusões foram vista dentro da boate Areia Branca, graças à organização do Mossoró e a fiscalização do gerente, o senhor Djalma. Da amizade existente entre seu pai e Djalma, Roberto jamais esqueceu. Se vivo estivesse, Djalma seria o grande narrador das noites boemias e festivas no Areia Branca. Quando faleceu, há 16 anos Benedito Alves, o Rei da Noite, deixou a casa em pleno funcionamento, com nove funcionários e uma dezena de mulheres. Clientes assíduos, ao relembrar das aventuras no Mossoró enchem a boca para dizer: “Era um ambiente quase familiar”.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

MENINOS DA AVENIDA por Paulo Ramalho

Muitos

Éramos

Naquela

Irmandade

Nadando e fazendo tudo que tinha direito.

Obtendo

Sonhos


Durante

Anos


Amigos

Vivíamos

Enturmados

Naquela

Intimidade

Duradouro

Até........

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

AS “PELADAS” DO HOTEL ATLÂNTICO por Murillo Mendes

UM “RACHA” QUE, AFINAL, UNIA

Ontem, sem que programasse, passei pela Avenida da Paz e não resisti diante daquela que foi a mais bela de todas as nossas belas praias. Premido pelas boas recordações suscitadas, resolvi descer do carro e percorrer, à beira d’água, o trecho em que, na minha adolescência/juventude, quase que o habitava, pois que nele desfrutei o melhor desse augusto tempo. Bem aventurado, foi exatamente ali que iniciei a construção do amor da minha vida; amor sem fronteiras, verticalmente dado e recebido, fértil e frutuoso, que nem a inclemência da morte foi capaz de minimizá-lo, ou de extingui-lo.

Nele, senti-me, novamente, ávido de viver em plenitude; despertei, em mim, o jovem sonhador e projetista que tudo podia... que muito queria. O fato é que revivi, em intensidade e nesses breves instantes, no trecho que mediava os trapiches que não mais existem e o então florescente Hotel Atlântico, um turbilhão de lembranças significativas que, ainda, me animam e sustentam, e estimulam-me para o viver amplo.

Houve um tempo – bendito tempo – em que essa praia sediava, em todos os domingos, em suas manhãs ensolaradas, uma das mais disputadas “peladas” futebolísticas de nossas encantadoras orlas praieiras. O seu palco, frontal ao Hotel Atlântico, tinha dimensões imensas e irregulares; era limitado pela maré, de um lado; do outro, pelo capinzal rasteiro que, sutilmente, homiziava insuportáveis carrapichos. O jogo era disputado, assim, em aplainadas e firmes areias trabalhadas pela maré, e nas frouxas e cansativas areias brancas que guarneciam e ornamentavam o mar azul que se descortinava ao fundo.

As equipes eram constituídas, sempre, através de chamada alternativa dos presentes; realizada por dois dos seus mais inveterados habitués; quase sempre, Júlio Normande e Betinho Perrelli. Iniciado o “racha”, ele só acabava depois de passado o “meio dia”. Não havia árbitro. Faltas e “goals” eram confirmados e aceitos de modo consensual; algumas vezes, no grito. Neste caso, nunca sem acirradas discussões que eram aliviadas por piadas e chistes que arrefeciam os ímpetos e recompunham a camaradagem.

Era jogo “pra valer”. Não obstante isso, os disputantes, arengueiros em sua maioria, jamais saíram para a “via de fato”. As derrotas eram naturalmente assimiladas. As discordâncias e o inconformismo dos derrotados eram domados pela esperança de que o troco viria na próxima “domingueira”... e, isso bastava, era o suficiente para se manter intacta a harmônica camaradagem. As discussões teimosas eram soterradas pelas “tiradas” inteligentes; pelo caçoar oportuno; pelo humor inofensivo e bem colocado, que temperava a doçura dessa convivência semanal, garantindo-lhe mansidão e pacificidade.

O “racha” do Hotel Atlântico era convergência, união e respeito mútuo. Fez-se em amizades inabaláveis que resistem e prevalecem até hoje; não foram afetadas pela oxidação do tempo. Seus participantes, na realidade, concertaram uma franca convivência que se mantém atual; sobremodo, como exemplo de coerência e de valorização individual.

Antecipando-me em desculpas pelas prováveis omissões, exalto e nomeio, aqui, os lembrados sujeitos ativos dessa eloqüente demonstração democrática; marcadamente fraternal e igualitária: Júlio, Zeca e Henrique Normande; Zé e Mané Ramalho; Fernando e Betinho Perrelli; Paulo Mendes; Gerson Omena; Joubert Scala; Rubinho Mastigada; Vetinho e Claudinho Pacheco; Claudinho Ferrário; Pai Manu; Arroxellas; Afrânio Montenegro; João Simões; Cleantho Rizzo; Luizito; Louvain Ayres; David; Maso e Dirson; Napoleão Moura; Juvencinho Lessa; Zezé Barbeiro; Peitudo; Ascânio Valença; Licito Cansanção; Eraldo; Aurélio Munt; Miguel Rosa; Tonico; Fernando e Toinho Cotrin; Paulo, Maru, Guy e Mano Gomes de Barros; Elísio Aguiar; Zirreli; Eduardo Jorge; Pedro Galinha...

Salve, pois, o futebol praieiro do Hotel Atlântico, por tudo que ele pôde oferecer e edificar.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A VOLTA DO FENIANO por Paulo Silveira

Que foi, foi, uma festa linda, Maravilhosa. A alegria dominando o vasto salão. As serpentinas traçando riscos multicores. As chuvas de confete prenunciando um grande carnaval. Todos riam contentes. Era como se fosse uma enorme família. Fosse não. Era mesmo uma enorme família “feniana” a espera da chegada do ano novo – 1967.

De repente, a orquestra toca o Hino Nacional. O silêncio agora é profundo. Ouvia-se somente a música, símbolo da Pátria querida. Os emotivos faziam força para não chorar. Outros, recordavam terras distantes. Parentes que partiram para sempre.

Logo mais, chegaram os abraços. Lábios colavam-se nas taças de champanhe. Era a família reunida, democraticamente. Jovens e velhos. Todos, todos cantavam e dançavam saudando o ano que vinha do berço que se chama tempo.

Bem que essa missão não é minha. De escrever ou descrever uma festa, que não sou cronista social. Mas faço esse registro como secretário do meu querido Clube Fênix Alagoana, do clube da minha mocidade e de minha velhice. Faço esse registro como se estivesse redigindo uma ata.

E recordo. Recordo um passado gostoso. Dos dias bons. Dias maus. A segunda grande guerra envelopando minha geração em fardas do Exército. Os Natais que eram pretensiosos, envoltos no “Black-out”. Os submarinos nazistas, eram como hienas no fundo do mar, farejando a costa brasileira. Mas a velha Fênix nos aconchegava, e dentro de seus salões eu e meus colegas éramos novamente “fenianos”, fardados de branco. Esquecíamos o que de ruim nos esperava.

Lá está nesta primeira madrugada de 1967 o Barnabé Oiticica. Não mais é o jovem tenente de artilharia. E’ o senhor casado, usineiro, cercado da esposa e filhos. O seu menino repete as façanhas do pai, e vem para o salão dançando com os brotos de hoje.

No meio dessa alegria, eu sinto falta de Hermann Almeida. Engulo uma dose de uísque. Quero afogar minha saudade. Matá-la. Esquecer. Brincar. Sorrir. Se a vida é tão curta e ninguém sabe qual o primeiro que partirá!

Aos pouco, a velha e querida Fênix me domina. Chego a ser feliz. Estou com minha esposa, minha filha, meu futuro genro, meus irmãos, e meus sobrinhos. E devo tudo isso ao meu clube, que me retirou da cama, da meditação, me transformou num sujeito alegre, quando minutos antes, eu era uma espécie de escafandrista, mergulhado no fundo de um mar de recordações, vendo meu pai, minha mãe, meus amigos. Amigos como o motorista Franklin Bezerra – o seu Franco – quase um irmão, que durante tantos anos, nunca me largou.

A Fênix é meu doce refúgio. Estou alegre, já agora quando a madrugada vem. Que bom a gente abraçar afetuosamente os conhecidos. Desejar a todos bons anos.

Repentinamente, ouço a voz do Presidente em exercício Ardel Jucá me convocando. Processa-se a eleição e posse da nova “glamour-girl” da Fênix, a linda menina-moça Laura Baia Quintela, um bibelô, um poema transformado em gente.

Mas a grande surpresa veio em seguida, quando Ardel Jucá, com sua voz compassada, disse:

Convido para vir até aqui o maior de todos os foliões “feniano”, o Sr. Luiz Ramalho de Castro.

Acredite leitor, quase que as palmas faziam tremer os alicerces do ginásio. Estava ali Luiz Ramalho, o seu Ramalho da Costeira, o folião dos grandes carnavais, o Rei Momo espontâneo que brinca com ingenuidade. O folião atravessou várias décadas fazendo o passo com sua esposa, seus filhos e netos.

Estava ali um homem digno, com os cabelos brancos como o de um Papai Noel, bondoso e generoso. Estava o seu Ramalho da Costeira que de seu bolso pagou muitas passagens para que jovens numa segunda classe fosse tentar a vida no sul, como aquele personagem cancioneiro popular que diz:

“Tomei o Ita no Norte”.

E foi essa a primeira emoção de alegria que experimentei neste ano de 1967. Quando o sol, que é um astro-rei, surgiu na avenida, prateando o mar, saudando o ano novo, eu pedi a Deus pelo meu povo, pelos meus amigos e até pelos meus inimigos, se é que os tenho. Era uma grande hora que devo registrar para a história social de minha terra. O Ardel Jucá convocando um outro Rei, Rei do Carnaval, Rei da Alegria, Rei pela bondade de seu coração, pela sua popularidade espontânea. O seu Luiz Ramalho, era ali, naquela festa de confraternização, a mais humana figura que encheu de satisfação, de prazer aquele mundo de gente que registrou com suas palmas – palmas dos jovens e velhos – que saudaram com o ano novo A VOLTA DO FENIANO.

UM REI TAMBÉM MORRE por Paulo Silveira

Os súditos têm a impressão que o rei não morre. E quando isto acontece, surge um desapontamento geral, embora o reinado continue a existir pelo sistema de direito em que se apóia a coroa e que oferecer oportunidade para o sucessor ocupar o trono.

Aos poucos tudo vai se adaptando dentro da paisagem. Quase sempre o sistema é parlamentarista, e o rei vivo, reina, mas não governa.

Por duas vezes, num regime tradicionalmente republicano democrático, o mundo sofreu o impacto da renúncia de cidadão um presidente. Quando ele morreu, simples cidadão da França, desapareceu também um sistema de governo que um só Charles De Gaulle sabia impor para tirar sua pátria dos abismos fabricados pela ambição dos aventureiros.

Era um rei sem coroa. Um rei que criou o “Degaulismo”, que é também um sistema de direito constitucional fortalecendo o Poder Executivo, para evitar crises e anarquia.

Existem muitos reis sem coroa. Reis que levaram e ainda levam alegria para o povo. Reis como Maurício Chevalier, como Charles Chaplin, como o atleta de pernas tortas, Garrincha, hoje envolto nas suas angústias, nos seus complexos. Rei como Pelé.

Pois Alagoas perdeu um rei. Um rei sem coroa. Mas um rei popular. Um rei que nos carnavais, com sua alegria, comandava multidões democráticas. E cantava, e dançava, e sorria, com aquela mesma disposição que dirigia os “itas”, e os “aras” da Companhia de Navegação Costeira, organização que representou tantos anos em nossa terra e que o tornava um LEADER, um CICERONE, um relações públicas, como se diz hoje, do cais do porto de Maceió.

Morreu Luiz Ramalho de Castro. A cidade está crescendo. Espalhando-se pelos tabuleiros, pelos mangues, pelas praias. Subindo verticalmente através de seus arranha-céus.

Mas, com a morte de Luiz Ramalho de Castro, Maceió ficou menor, pois a grandeza da alma desse homem que partiu não tinha limites.

Morreu um rei que era um bom pai, bom esposo, bom amigo. Tinha que morrer, porque chegou seu dia, porque diante da morte até um rei bondoso capitula.

Para o povo, todavia, Luiz Ramalho ficará na lembrança de um toque de clarim quando fevereiro chegar. Porque será carnaval, uma festa que encherá de recordações os que amavam você, Luiz. Você que era bem um símbolo de bondade num mundo de traições, de inveja e de terroristas covardes que espalham a morte.

JORNAL DE ALAGOAS – SÁBADO, 15 de abril de 1972

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

FATOS E RECORDAÇÕES DA MINHA INFÂNCIA NA AVENIDA por Eurico Uchoa

Como é prazeroso relembrar aqui alguns fatos de minha infância. A amizade que iniciamos naquela época continua sendo marcante em nossas vidas. Nossos encontros mensais de hoje são a prova disso.

BANHOS DE MAR – Os banhos de mar na praia da Avenida eram deliciosos e as brincadeiras na areia também. Mas estávamos sempre atentos ao que se passava em volta. Certa vez, o irmão do Seu Heráclito Lima, que morava no sul, chegou por aqui. Ele tinha o hábito de dar um mergulho diário no mar. Fincava um pedaço de galho de amendoeira na areia, marcando assim o local onde havia escondido a chave de casa. Certa vez, assim que ele foi mergulhar, fincamos rapidinho um monte de galhos parecidos...

MANGAS ROSAS - Minha casa era vizinha da D. Maristela – mãe do Lelo, Lula, Tereza e Clarissa. Subíamos o muro da Villa Olinda (nome da nossa casa) para alcançar o telhado e de lá atingíamos a mangueira. As mangas rosas eram deliciosas e sempre saboreadas ali mesmo na calçada pela turma da Avenida.

CARRO DO DR HOMERO - A “fobica” do Dr. Homero era pilotada pelo Tonho que todas as manhãs conduzia os estudantes no Centro da cidade, para os Colégios Anchieta, Batista, Diocesano e Estadual. Lá ia eu, minhas irmãs e outros colegas. Se a boléia daquela camionete Ford falasse...

SAPATO DO SEU LUIZ - Lembro-me do famoso sapato preto do Seu Luiz Policarpo (empregado do Dr. Homero). Foi usado por mais de 20 anos e nunca soltou o selo de fabricação.

ROLETES DE CANA - Alberto e Valdo disputavam sempre o último rolete de cana na porrinha!!!

BANQUINHO DA PRAIA – Acirradas discussões sobre política aconteciam antes das eleições no banco da Avenida , em frente ao Beco Emilio Cardoso, principalmente na época da turma do Brizola.

CLUBE FÊNIX ALAGOANA – Das festas tradicionais do clube (aniversário, reveillon e carnaval), temos boas e divertidas lembranças...

JARAGUÁ TÊNIS CLUBE - Minha avó, mãe de meu pai, morreu numa quarta-feira e no sábado era o dia da Festa Macabra no Clube Tênis. Pedi para Tia Bel fazer uma fantasia de “Alma Penada” dizendo que seria usada pelo Ricardo Peixoto. No sábado, disse para família que iria dormir fora de casa, mas fui mesmo para festa. Na volta, traído pelo álcool, esqueci do que tinha inventado e ao voltar em casa, meu pai se deparou com a cena. Seu Ribemont, meu pai, ficou irado com o desrespeito pelo luto. Tentei explicar que de qualquer forma, era uma FESTA MACABRA, com caixões e velas por todos os lados, mas não escapei de 30 dias de castigo sem sair de casa.

FAMILIA GALVÃO – Lembro muito da família Galvão, vizinha da AABB na Avenida. Os filhos, bem menores que a gente, sempre nos ajudavam guardando lugares no cinema da AABB das quartas-feiras. Augusto Galvão, hoje um grande amigo, é um deles. Ele, Isolda e seus irmãos menores foram sempre os primeiros a chegar à sessão.

DIA DE NATAL – Por muitos anos, logo depois que ceávamos com nossos familiares, Emílio, Lelé, Tonho, Cuíca, Ricardo e outros ( a memória já não me ajuda ), íamos a pé até a festa da praça da Faculdade de Medicina, no Prado. Certa vez fomos assistir a um show de “Jararaca e Ratinho”, no palco montado perto do Memorial. Para tirar onda com Ricardo, que ia abrindo caminho na multidão, Emílio deu um tapa na careca do Ratinho e saiu despistando. A confusão formou-se em torno do Ricardo que estava na frente. Mas como nossa turma era “todos por um e um por todos” fugimos juntos do ambiente pesado !!!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

OS 15 ANOS DE BEBÉ por Chiquinho Nemésio

Albertina Nonô Lima, filha de D. Santina e profº. Albérico Lima tem como único irmão o Dr. Alberto Nonô Lima (CUCA), hoje famoso advogado de Alagoas.

Dr. Albérico Lima, pai de Bebé, foi meu professor de contabilidade, no Curso de Ciências Econômicas, que funcionava no prédio da “Perseverança”, á Rua do Sol! Quando lecionava, sua movimentação na classe era quase nenhuma, porém, ficava indo e vindo, em um passo adiante e outro para trás, daí o apelido de “professor Pastoril”.

Mas, vamos ao aniversário de 15 anos da Bebé.

Bebé sempre foi uma menina esplendorosa e radiante. Era realmente a “MUSA” da Avenida da Paz!

Já mocinha, quando vestia seu maiô preto (naquele tempo não se usava biquíni), parava nossa tradicional pelada de futebol ou vôlei! Realmente Deus ajudou muito a nossa Musa!

Pois bem, D. Santina permitiu que a filha convidasse toda a turma da Avenida para a festa dos seus 15 anos! Principais Convidados: Diógenes Gama, Orlando Meira Góis, vulgo CABANA, os primos Betuca e Carlito, Eduardo Jorge, Zé Maria irmão do Cabana, Werter e Wolney e muitos outros!

Sua mãe que era muito pródiga mandou servir bebida e comida á vontade! Nós, bons “de copo”, enfiamos a cara. Resultado, descobrimos que havia uma bebida nova para nós! GIM Tônico! E enfiamos a cara!

Resultado: Eu lembro que subi em uma mesa, fiz discurso, dancei e, no fim, tomei GIM “puro” sem água tônica. Foi um porre geral. Eu estava sozinho em minha casa e levei uns bêbados para dormir lá, pois, meus pais estavam viajando. Terminamos a farra bebendo uma garrafa de vinho que papai havia deixado em cima da cristaleira!

Resumo da ópera: Cabana que estava de “paquera” com a aniversariante ficou na mão!

Eu até hoje, nunca mais tomei GIM na minha vida. Foi uma festa inesquecível!

GINCANA DE LAMBRETA por Chiquinho Nemésio

No ano de 1958, eu já era funcionário do Banco do Brasil. Comprei na “Casa Normande” a 1ª lambreta que circulou em Maceió. Ia para o trabalho de lambreta, ia para a Perseverança de lambreta e, á noite levava meu amigo Betuca na garupa até o bairro de “Cruz das Almas”, pois namorávamos duas irmãs!

Pois bem, certo dia chegou a Maceió um “galego” italiano, representante da marca Lambreta e organizou uma gincana (vide fotos).

Concorri formando dupla com meu irmão Hugo, também do BB, e representamos a AABB, que nessa época funcionava na Avenida, junto da minha casa. A competição foi na Avenida da Paz. Não precisa dizer qual foi a dupla vencedora: Eu e meu irmão.

Assim era a nossa querida Avenida da Paz!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

OS SINOS DOBRAVAM por Paulo de Castro Silveira

Bem que saí de casa para ir ao encontro do Emilinho – do Emilio Cardoso Filho. Antes, teria uma audiência da Junta de Conciliação e Julgamento, onde três gordos pontificavam. Eu, o Hebel Quintela e o Pedro Barbosa Júnior.

Hebel estava apressado.

- Vou ao enterro do Emilio, dizia.

Sei que minhas mãos tremiam. Também iria levar o meu sobrinho espiritual à última morada. O sobrinho filho do Emilio Cardoso e dona Elizabeth. Sabia que chorava, como choro agora, quando escrevo esta crônica de saudade. Repentinamente, o Pedro, encerrando a audiência, disse:

- Os sinos estão dobrando.

E aquele toque plangente, saudoso, de finados, me acovardou. Emilinho, não fui ao seu enterro. Fugi chorando de asfalto afora. Fui bater no “Mirante da Sereia”, lá para as bandas de Pratagy. E vi você, na piscina natural, menino, comigo, seu pai, sua mãe, seus irmãos, minha esposa, minha filha, naquelas tardes dos sábados em que fazíamos nossos folguedos em família, e você, Emilio, me pedia a benção, talvez pensando que eu fosse seu tio de verdade.

O mar era agressivo. As ondas não deixavam que eu ouvisse a voz de seu pai, me consolando, porque ele era um forte. Mas a voz dos sinos superavam a voz das ondas. E eu sabia que naquela hora você descia à sepultura, e podia ver dona Elizabeth e suas irmãs chorando, chorando, e então pude pronunciar baixinho aquela frase de John Danne: “ A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não me perguntes por quem os sinos dobram: eles dobram por ti”.

Pois, Emilinho, seu tio não pôde ir ao seu enterro. Não vai a sua missa. Mas, acredite, menino, que sofro como se perdesse um parente querido, porque você era como a Branca Rosa, o Draute, a Denise, a Estela, de quem você tanto gostava; a Cristina, Ricardo, o Dalminho, a Arícia, a Yara, a Martha, o João, o Eduardo, o Cuca, o Lelé, a Socorrinho, o Eurico, o Guilherme e Ricardo Braga, como seus irmãos, uma partícula dos meninos daqui da minha rua, da Avenida da Paz, meninos que sempre amei, e que podem crescer, mas que continuarei a chamar de meninos, porque os pais, os tios, os padrinhos, os amigos sinceros guardam na lembrança, as peraltices daqueles entes pequeninos, que crescem, mas, que simbolicamente são sempre pequeninos, e suas travessuras são subsídios para histórias cheias de saudade.

Por isto, menino, menino Emilio, sentindo sua partida temporária eu continuo ouvindo os sinos dobrando, chorando, como eu choro agora, Emilinho, para dizer finalmente, como qualquer pai, como qualquer tio:

- Deus te abençoe, meu filho.

GAZETA DE ALAGOAS – 13 de setembro de 1968

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

DONA SANTINA NONÔ por Cuca

Quando fiz um esboço sobre o professor Béu, comprometi-me em fazer algumas linhas sobre Dona Santina; mas, por ser de uma personalidade bem mais forte e polêmica, fiquei empurrando o compromisso, mas, agora, desejo cumprir a promessa.

Analisando sua forte presença, defino-a, como uma pessoa extremamente valente e generosa. Nos meus sessenta e seis anos bem vividos, afirmo que conheci poucos homens com a coragem de Dona Santina; o sentimento de medo, jamais foi demonstrado em qualquer situação.

Filha predileta do velho Nonô da Mataraca, respeitado por sua coragem e palavra; tinha o nome de sua avó, mais um fato para a proteção explícita do pai.

Muito prendada, tocava violino, pintava, costurava, cozinhava, atirava, adorava andar a cavalo, inclusive, era conhecida pois seu ginete, presente do pai, pulava todas as porteiras da fazenda Mataraca, mesmo estando de selim que era comum à época, sem qualquer apoio; todavia, tinha como marca indelével sua opinião, que defendia com unhas e dentes, adorava uma discussão, para extravasar seus pontos de vista, sempre bem equacionados e baseados em leituras e pesquisas.

Teve um único e grande amor em sua vida, o Béu, com o qual trocava cartas diárias, pela soupa, que fazia o trajeto Maceió/Atalaia, defendê-o até ficar viúva aos oitenta e três anos, mesmo separada já, há mais de vinte anos. Atribuo à causa da separação ao tio Pedro e Derzuíla que tinham ódio de mamãe, vez que ela nunca os bajulou; inclusive, comprou uma briga com eles, pela não aceitação de receber ALBERTINA em Recife, onde foi estudar no Colégio Regina Passe, ficando com a prima Geruza e Dr. Hercílio Auto nos finais de semana. Sendo considerado o rico da família, Pedro quando vinha a Maceió, era alvo de muito zelo pela família, mas Dona Santina não dava muita bola e sempre se impôs.

Dona Santina era uma pessoa brava e destemida, citarei casos que presenciei e participei, pois após a separação, voltei para morar com ela por muitos anos, mesmo depois de casado e, ela foi uma companhia assídua em minhas idas as minhas propriedades em Atalaia, S. Luzia do Norte, Traipú, Tranqüilidade e casa da praia em Coruripe.

Houve um desentendimento com o empregado da Tranqüilidade e dei um prazo para desocupar a casa, mas ele vinha enrolando a mim e ao Waldo; disse ao Waldo que iria retirá-lo por bem ou por mal; sempre tive porte de arma, mas esse dia, levei um rifle 44, uma caixa de balas, deixei com D. Santina no carro e saí para retirar o administrador, que, graças a Deus, prontificou-se a sair, retirando suas tralhas para o caminhão. Estava tranqüilo, pois tinha plena fé em mamãe.

Em outra oportunidade, ia para Coruripe no fusca de papai e, perto de S. Miguel dos Campos uma carreta ao nos ultrapassar, jogou-nos no acostamento, quase virando o carro; após o susto, seguimos viagem e, mais adiante em uma subida vimos a bendita carreta, tendo d. Santina pedido para que eu emparelhasse, pensei que iria dar uma bronca; mas, qual a surpresa ao vê-la abrir o porta luva, onde colocava o revolver , retirá-lo e apontar para o motorista , dizendo que respeitasse os menores atirando no pára-brisa, espatifando-o; era uma exímia atiradora, seguimos viagem.

Tendo comprado propriedade em Traipú, e precisando plantar capim, convoquei meu compadre Aloísio do Pilar para passarmos uma semana na fazenda que não tinha luz elétrica, apenas uma pequena palhoça com dois quartos, sala, cozinha e um sanitário, onde tinha um tanque que trazíamos água de uma cacimba atrás da palhoça. Sabendo de minha pretensão, mamãe disse que iria e ajudaria fazendo a comida dos peões e a nossa, não concordei, mas quando ela encasquetava, não tinha jeito. Levamos dois candeeiros de querosene, três redes, algumas roupas, toalhas, panelas, talheres, baldes etc.; e fomos na aventura. Mamãe ficou num quarto e eu e meu compadre no outro; a noite começamos a ouvir uns assobios ao redor da casa e, dona Santina do quarto, perguntou ao Compadre se era cobra, ao que o mesmo informou ser de caninana, cobra muito venenosa e comum na região. Tendo ela informado que só deveríamos descer da rede com o candeeiro, sem qualquer destemor. Logo cedo ia com o Sr. Aloisio buscar o pessoal no povoado de Olho D´a gua e só voltavam ao entardecer, a comida era preparada por mamãe; depois de deixar o pessoal; seguíamos os três para Traipú, onde fazíamos compras e tomávamos banho no rio S. Francisco. Passamos uma semana em Traipú, ela não reclamava, não tinha frescura, era notável.

Nas viagens que fazia para Paulo Afonso, na Bahia, para farrear e namorar, era assídua, pois adorava o sobrinho Geraldo, Laiz e sua irmã D. Argentina que era muito parecida com ela em todos os sentidos. Ficávamos na vila da Diretoria na CHESF, onde Geraldo era Diretor de Compras. Fazíamos pelo menos três viagens por ano, acompanhados por Clailton, Adilson e uma vez Emílio.

Era muito sincera e extrovertida, as pessoas a adoravam ou odiavam, não tinha meio termo; tomou medidas erradas ao meu ver, como a educação de Bebé, exigia muito e a obediência era total. Uma ocasião foi a Praça do Pirulito e trouxe Albertina pela Orelha, para que a mesma não se encontrasse com um flerte.

Como mãe, era uma leoa, nos defendia, alertava, observava e acompanhava nossos passos, principalmente de Albertina. Quando fiquei em 2º época na 3º série ginasial, fui obrigado a decorar todo o livro de ciências naturais, fiquei no sótão por um mês inteiro; tomava lição todas as tardes, com uma palmatória na mão. No ano seguinte, me enviou para o reformatório de Sergipe, o Colegio Jakson de Figueiredo, onde terminei o ginasial como interno.

Por ser malandro, levei muitas surras, principalmente por ir ao cais do porto para pescar, fumar escondido, tomar umas cervejas e, como não sabia mentir para ela, não tinha jeito. Mais devo a ela meu estímulo para ser uma pessoa de caráter.

Depois da separação, cismou de viajar para conhecer outras paragens, realizou varias excursões nos Estados Unidos, Terra Santa, Europa, Asia a as Américas do Sul, do Norte e Central.

No final da vida, gastou tudo o que tinha com seu neto, que adorava, e era correspondida, mas no meu entender, o prejudicou por demais.

Era minha fiel escudeira, elem de ir comigo toda semana para a fazenda, também acompanhava-me nas viagens para impetrar ações judiciais no interior, nas compras de gado, nas visitas aos compadres Madeiro e Geraldo, a Hidelbrando Sintra, Antonio Amaral, Biegas e vários outros.

Por idéia dela, fiz duas gincanas com meus sobrinhos e amigos do Albertinho, na Branca, comemorando antecipadamente seu aniversário; para ajudar levava tia Coralia, os meninos adoravam. Também por mais de uma vez levei para a fazenda a pedido de mamãe, suas irmãs Corália e as duas Marias que inclusive colocavam nomes no gado.

Foi a primeira pessoa a levar às sobras das refeições, para a criançada da fazenda, que esperavam por ela para almoçarem; isso há mais de 20 anos, que hoje é natural e corriqueiro.

Solicitava das amigas, roupas usadas, remédios, um kit de recém nascidos com banheira e mais de 10 itens que bordava e pintava fraudas, lençóis, etc.; doando-os ao empregados de minhas propriedades, onde realizava todos os anos as festas de São João e Natal, fazendo comida e dando presentes, aos funcionários, mulheres e filhos.

Comprava sementes de hortaliças, conseguia plantas e roseiras, fazendo e cuidando de hortas e canteiros. Todos os empregados tinham um terreno para plantarem verduras e criarem galinhas; sempre sob sua supervisão.

Contudo, depois de levar uma queda em seu apartamento e quebrar o fêmur, mesmo após a operação e colocação de pinos, mudou-se para Ponta Verde e, deixou de sair de casa, entrando em depressão, entregando-se à doença.

Já sem sair de casa, pediu-me para que fosse enterrada no Pilar, junto ao seu pai; mas o problema era que o mausoléu onde estão enterrados vovô e vovó é pequeno e tio Celso não aceitou seu pleito, abriria um precedente.

Mais indo ao cemitério, constatei que logo atrás do túmulo de meus avós maternos, existe um grande mausoléu da família Lima, de meu pai. Então, passei a cuidar do mesmo; e nele fiz o enterro de minhas tias Maria Alice, Virginia, papai e mamãe, que ficou ao lado de vovô Nonô, como desejava.

Mamãe veio a falecer aos noventa anos, praticamente fora de si, mas sofreu pouco, graças a Deus, e deu muito menos trabalho do que papai que sofreu mais e tinha plena consciência, sempre pedindo para morrer.