quarta-feira, 27 de abril de 2016

O BANCO DA PRAÇA por Alberto Cardoso



Banco simples, de concreto armado, dimensões  1,50x0.50 m , sem encosto, centro lateral de um canteiro gramado limitando-se a calçada e via principal da Av. da Paz, localizado próximo ao Coreto  e ao leste  com área arenosa( utilizada pelos meninos da avenida para jogos de pião, chimbra, buraco, rouba bandeira, academia), outra calçada lateral  da mesma avenida com descida para a praia e o Oceano Atlantico.
A posição estratégica permitia ter uma total visão das casas localizadas a beira mar e frontal ao bêco chamado atualmente de Emilio Cardoso ( meu querido irmão) que liga a Av da Paz  à rua Silvério Jorge exatamente no casarão Villa Olinda.


Durante nossa infância e inicio da adolescência para a maior parcela dos meninos da avenida, esse casarão ,com grande área de quintal possuindo um coreto sombreado por mangueiras, além coqueiros ede muitos tipos de fruteiras, pertencia ao Sr. Baltazar Mendonça, onde viviam nossos amigos Mourinha e Duduca,  sendo sua família comandada por Dona Mariinha , que acolhia a todos os meninos com carinho e permissão para usar sem  restrições, os espaços e as frutas em toda plenitude. Posteriormente a família mudou-se para Recife e o casarão foi ocupado pela família de Ribemont  Uchoa , pai do nosso  querido amigo Eurico e de suas irmãs Katia e  Deise, que além de manter ampliou nosso convívio com permissão para usufruirmos  daquele pedaço de paraiso.

Este banco , durante a década de 50 e por cerca de 10 anos, foi naturalmente ocupado durante todas as noites pelos meninos da avenida. À partir das 18:30h iam chegando  e os 4 lugares  eram ocupados de imediato e os demais se aconchegavam   agachando-se no gramado fofo que o circundava. Era um atual Top Point.

Conversas jogadas fora e planejamento do que íamos fazer naquelas belas noitadas, diante de inúmeras opções que se apresentavam.  A brisa marinha do Atlantico era constante, sem qualquer tipo de poluição e nos acalentava , sem percebermos , deixava  a todos numa temperatura ambiente  agradável e reconfortante , compensando os esforços desenvolvidos durante o dia, que em media jogávamos  de  duas a três peladas no futebol de praia , com direito a banho de mar inigualável, o ano inteiro.

De memória , há mais de meio século ,os meninos da avenida  que mais frequentemente frequentavam o banco  todas as noites eram: Alberto, Emilio, Adilson, Lelé, Eurico, Cuca, Carlito, Betuca, Waldo, Guila, Ricardo Braga, Ricardo Peixoto, Paulo e Quico, Tonho, Rafael, Melé, Lelo e Lula ,  entre outros.  Turma alegre, participativa, unida, sem qualquer registro de brigas entre nós e também entre nossas famílias, portanto um ambiente propicio para fortalecimento das amizades e que perduraram por todos esses anos.
Os moradores das casas residenciais na nossa frente aos poucos se movimentavam colocando as suas respectivas cadeiras na calçada para receberem  também a  brisa marinha, atualizar sua conversas, observar os movimentos no seu entorno e os poucos ônibus e veículos que circulavam na direção da cidade ou na direção de Jaraguá. O Seu Pádua morador da casa de esquina  era sempre o 1º a aparecer, camisa de pijama, tamancos, circulava até o bêco, fazia pequenos movimentos digestivos e se recolhia, era um cidadão  solitário .

Dona Santina sempre muito arrumada,  sentava-se com Seu Béu e Albertina em suas cadeiras de ferro e assentos de lona e se balançavam por horas. Subindo o bêco,  Dona Àurea e Dona Zeca  que olhando para nós no banco, dávamos boa noite  e  Dona Zeca ia logo xingando e dizia : maloqueiros e os risos da galera era geral, todos nos sentíamos felizes  pelo aconchego e pelo tratamento  em todos os momentos, e ambas seguiam para casa de Dona ( vovó) Melinha,  extraordinária figura humana, mansa de coração com todos, agregava toda família todas as noites nas inúmeras cadeiras na calçada de sua casa, em frente ao Coreto  e a direita do nosso banco da praça.  Um pouco mais a direita as famílias Cintra , Cardoso e Wanderley ocupavam dezenas de cadeiras e a prosa era grande e alegre pois somando os filhos das casa 1074  e 1068,  eram cerca de vinte.

Subindo o bêco , lá vem Mané Sapinho, 1,50m franzino, com seu jeito tímido de  andar,era um artista nato e fazia a imitação exemplar de bichos . Trabalhava diuturnamente para a família Wanderley, na manutenção e  pintura da  residência, mas á noite, fazia seus bicos utilizando-se de sua arte. Aproximou-se do banco da praça, onde já tínhamos um grande grupo concentrado e foi direto  querendo identificar quem foram os dois meninos irresponsáveis  e metidos a engraçadinhos qua gritaram seu nome no circo que estava montado em terreno próximo  do clube Fenix, no momento que apresentava seu número artístico. Dois dos meninos, penetraram por baixo da lona do circo quando era anunciada  a maior atração da noite, dizendo diretamente da cidade do Mexico  o artista Pablo Moreno ,o maior imitador de bichos do mundo e quando apareceu e o palco foi iluminado , os meninos disseram: ôxente  esse nós conhecemos e gritaram alto Mané Sapinhoooo.  Os leões de chácara a mando do dono do circo imediatamente localizou  os meninos e os expulsaram. Eles ainda ouviram o famoso Mexicano imitando para delírio da plateia as brigas de 2 cachorros grandes, de 2 cachorros grandes e um pequeno, de cachorro com gato, briga de gatos.

A programação da turma era variada, determinados dias da semana íamos assistir jogos de Voley, Basket  , de Futebol de salão, pois nessa época Maceió tinha excelentes jogadores e sempre saiamos vitoriosos contra as equipes de fora do estado, entre eles, de memoria: Santa Rita, Giba ( Gilberto Mendes) ,Tonho Lima, Napoleão ,Lula Monstrinho.  Nas 6ª feira era obrigatório ir assistir ao sessão de cinema no clube Fenix, onde alguns da turma não eram sócios, mas no final acabavam  entrando pois aproveitávamos a chegada das meninas com seus pais ,socios e em bloco nos  misturávamos  e passávamos pelo gerente  Sr Raimundo, sempre de paletó branco  e subíamos a escada para sala de projeção no 1º andar sem sermos  percebidos.

Certa vez, estávamos na calçada em frente  a entrada do clube observando à distancia o Seu Raimundo ,de pé junto a escada , para escolher a melhor oportunidade de penetrar na sala de projeção, quando de repente  nosso colega Mourinha , separou-se do grupo  e penetrou  confiante para enfrentar o gerente e após conversar deu meia volta vou ver e chegou junto a nós com a explicação, que quando perguntado  se era sócio, Mourinha  disse sim que era filho de Cabeção( rico empresário na época) e o Seu Raimundo disse de pronto que Cabeção não era sócio naãoo, pode voltar, pois ele já tinha subido alguns degraus.  Os risos e gozações foram grandes teve colega que caiu no chão de tanto rir. Ao final  Mourinha entrou e assistiu o filme, adotando a tática do grupo entrando em bloco com sócios e nunca mais se arriscou em enfrentar o gerente Seu Raimundo.
                                                                 seu RAIMUNDO


Certas noites partíamos do banco da praça para as festas populares que se instalavam nas praças do pirulito, Poço, Sinibú, dois Leões em Jaraguá. Existiam pastoris, roda gigante, carrossel, muita garota bonita, roletes de cana, sorvetes, tiro ao alvo, pipocas, alegria geral. Faziamos o percurso todo na pedoviária, sem medo de ser feliz e ao regressar ficávamos um certo tempo no banco da praça até sentirmos necessidade de nos recolhermos e abruptamente levantávamos simultaneamente  e diziamos  “té amanhã”.

Certa noite  aproximou-se do nosso banco o colega avenidense  Lizardo, irmão de Mario e Biriba, famoso Padu,  um pouco mais velho que a maioria, agachou-se no gramado  ,ouvindo e contando suas observações, sempre fumando com seu isqueiro zipo na mão, tragava forte e constante, já trabalhava na empresa da família, Casas Jardim ( Tintas), portanto era bastante diferente da maioria, já responsável, homem feito, outra visão da vida. Falava sobre comercio, mercado de trabalho, linhas de financiamento, capital de giro, concorrentes.  Chegaram em seguida Hélio Miranda, Capixaba e Péricles, todos velhos peladeiros da praia da avenida, os dois primeiros chegaram a jogar nos  clubes profissionais.  Sem cerimonia, sentavam no gramado e tomavam conta do papo. Os meninos da avenida consideravam Hélio Miranda o protótipo do boa vida, bom  vivan, bom de bola, mascarado, malandro , conhecia tudo da bola e descrevia determinadas jogadas  que resultaram em goal, em partidas decisivas.O Capixaba, não ficava atrás também descrevendo jogadas geniais, e nós boquiabertos com as inúmeras cenas  contadas pelos mesmos. Péricles era um solteirão gente boa que morava num 1º andar da rua Silvério Jorge e era peladeiro de praia, bem mais velhos que todos nós, também tinha suas histórias.

Ao final dos ano 50, o grupo foi se desfazendo paulatinamente pois , varios meninos foram tomando seus caminhos, mais responsabilidades com conclusão do curso científico, cursinhos de vestibular noturnos, muitos foram estudar fora do estado , e como dizíamos que a folga acabou , vamos assumir responsabilidades inerentes a nossa idade. Novos sonhos, novas realidades , novos ambientes, mas todos eram  unanimes em reconhecer que acumulamos uma base solida de amizade de companheirismo e tambem de saúde, pela excelente vida que pudemos usufruir, juntos com todas as nossas famílias unidas, para enfrentar  a vida no futuro, sem receios e com grandes possibilidades de sucesso. 

Que DEUS proteja sempre todos nós e nossas famílias para que  possamos ser úteis  à sociedade  que vier a nos acolher trazendo cada um  no intimo, todo legado de energia positiva que acumulamos na nossa inesquecível   Av da Paz,  na nossa cidade sorriso em Maceió/Alagoas/Brasil.

CELSO NOMINANDO NONÔ – Meu tio herói por CUCA



Vindo de uma prole de dez irmãos vivos, major Celso foi escolhido por seu pai o velho Nonô da Mataraca para ajudá-lo na administração das propriedades Mataraca, Laranjeiras e Taboleiro, todas anexas, situadas no município de Atalaia. As mesmas já estão em poder da família há aproximadamente 200 anos, vez que foram herdadas de meu bisavô, Coronel da Guarda Nacional Jose Tomás da Silva. 

Foi o único irmão homem a não ter um diploma superior, contudo demonstrou ser um sábio administrador, dentre seus inúmeros predicados; era conhecido pela extrema coragem, sinceridade, generosidade, ajudava espontaneamente seus amigos, funcionários, familiares etc. etc.

Sou deveras suspeito, vez que sempre foi o meu tio herói, mas a bem da verdade, tive o privilégio de contar com sua presença e de tia Liene por toda a infância e parte da adolescência; afastando-me um pouco após o casamento, todavia, estivesse presente à toda a sua existência.

Todas as férias escolares, inclusive feriados ia para o engenho, onde sempre fui tratado como um filho por ambos. Ele gostava de andar com seus sobrinhos e filhos, por isso presenciava e apreendia seu modo justo de agir e vivenciar o dia a dia na fazenda e fora dela.


Fui testemunho de acontecimentos indeléveis e formadores de meu caráter; citarei alguns: - Logo após a cassação de tio Aloysio, estivemos no Banco do Brasil na Praça Dois Leões em Jaraguá, para resolver uma situação e, tio Celso que sempre era tratado amistosamente , sentiu uma certa animosidade e, como não gostava de esperar, abriu o verbo; tendo aparecido na ocasião um rapaz alto, falando carioca, dizendo ser diretor  para que Celso acalmasse, o tio que era baixinho, pegou-o pela gravata, e aos berros chamou-o de viado, pois o mesmo estava com um paletó amarelo, estranho naquela época, dizendo-lhe cale-se, mecha que levará uma surra, me respeite. Foi um sururu danado e o santo remédio.

Estávamos jantando, quando o velho Flor,  administrador à época, veio dizer que os sertanejos, três irmãos, queriam acabar a festa de São Sebastião, que ocorria todos os anos no barracão do Elvécio; ele estava de camiseta branca e com um revolver 32 no quarto, saiu correndo e eu e o Flor atrás, até o arruado, onde os irmãos tinham ido para se armarem, ao passar pelo primeiro, virou-se e pulou com os dois pés no peito, derrubando-o, a seguir deu com as mãos um telefone no outro que caiu desfalecido, o terceiro, ajoelhou-se e pediu perdão. Foi uma cena que nunca me fugiu ao pensamento, ele estava armado, mas em nenhum momento utilizou-a.  

Como sempre, saiamos a cavalo pela manhã, para a Laranjeiras e, ao saber que o Elvécio tinha um plantio de melancias em uma das ilhas do rio Paraíba; desmontamos eu, Ricardo, Emilio, Mario e Neno e fomos comer as melancias, esquecendo do tempo, quando voltamos, já passava do meio dia, horário do almoço; Celso já estava nervoso na varanda, tentando enrolar, perguntei, “tio, onde colocaremos as selas ?” e ele botem no rabo, galego sarará.

Todo São João era celebrado; vinham Humberto Casado, Walter Lima, as sobrinhas de Tia Lucy, Marleide, Eliane, Carol, e amigas de Maceió, Flora, Mariluce, Cida, além dos menores, Eu, Lucinha, Ricardo, Jose Thomás, Neno, Mario, Emilio etc. Tio comprava vários fogos e bombas, todos os quitutes juninos, eram feitas inúmeras brincadeiras, a fogueira era enorme, onde eram assados milhos. Eu adorava as festas, mas quem mais aproveitava eram Humberto e Walter, pois tinham idade de paquerar a vontade; sempre preferia dormir no coro da Igreja que fica ao lado da casa grande.


Todos os anos era feita uma pescaria no Paraíba, onde fechávamos um braço do rio , onde era batido cipó, após algum  tempo, os peixes ficavam tontos, eram pescados com puçás e à mão. Também tinha a pescaria da Semana Santa que era feita nos açudes; soltava a água e passava um grande reducho. Os peixes mais comuns eram no rio: sabararus, jundiás, caras zebus ou bois, cascudos, piabas, trairas e pitus; nos açudes: tilapias, tambaquis, tambacus, piaus, surubins, curumatás e pescada branca; o produto da pesca era da Casa Grande,  convidados e dos pescadores e moradores, dava para dividir para todos pois pegávamos em média de uma tonelada.

Outro esporte muito apreciado por todos eram as caçadas, que sempre fizemos desde a infância, dentre elas, destacamos as realizadas na própria fazenda, nambus pé, capivaras, galos dágua, jaçanãs etc; na fazenda Riachão de compadre Mainha, pacas, veados , paturis e marrecos; nos alagados da cidade de Pilar, onde sempre aos sábados,  com o compadre Gabriel, Emilio, Lele e outros da Avenida da Paz, usávamos uma canoa que possuía e sempre com o compadre Aloisio ao remo, matávamos pássaros de inúmeros tipos, especialmente marrecos e paturis;  e as mais importantes, na propriedade em Ibotirama, estado da Bahia, onde passávamos em média uma semana inteira caçando.

Em ibotirama, propriedade de cinqüenta mil hectares à beira do Rio São Francisco, fizemos varias e maravilhosas caçadas e pescarias; havia  caça e peixes com fartura. Sempre viajávamos saindo do Mataraca de madrugada em duas camionetes, só chegando em nosso destino ao anoitecer, antes ´, tio Celso fazia  compras de pães, arroz, macarrão, café e fubá em Ibotirama , pois às carnes e peixes era de nossa responsabilidade caçá-los, como seja: mutuns, cordonizes, porcos do mato, veados, onças, tatus, gatos do mato, jacarés, patos , surubins, pacus etc  etc.

Sempre participavam nas viagens tio Celso, Ricardo, Celcinho, Jabes, Lula, eu, Junior Fuba e convidados, que juntávamos com o Sr. João, índio que morava na fazenda e  conhecia  todas as trilhas, açudes e esperas.

Todas as noites, quando voltávamos, após a retirada dos couros e repartição das carnes e preparo delas em uma fogueira de arueira na borda da piscina, ficávamos tomando uma bebida, cerveja ou uisk com tira gosto, finalizando com um banho refrescante, programando às caçadas do dia seguinte.

Era um paraíso, inclusive pela estrutura do ambiente, uma ampla casa com vários quartos e terraços em sua volta; tínhamos além do Sr. João o apoio de D. Maria, cozinheira supimpa. Poderíamos escrever um livro só com os causos destas caçadas. Sempre escolhi como lazer as caçadas, pois desligávamos totalmente do nosso cotidiano. O chato era a volta, vez que a semana passava com uma rapidez impressionante.

Meu tios sempre foram presentes em toda a minha feliz existência, desde a infância no engenho, avenida da Paz, na adolescência nas caçadas, na fase adulta com seus conselhos e exemplos.

domingo, 13 de dezembro de 2015

O VÔO DO SEU PORTELA por Carlito



O fato aconteceu na praia da Avenida da Paz. Apareceu em Maceió um português fazendo demonstrações aéreas com um avião teco-teco. Seu proprietário fazia apresentações em todas as cidades que passava, vivia desse biscate.

     O avião de nome Garoto decolava e pousava na praia da Avenida durante a maré baixa, perto do Sobral, local mais deserto. Suas apresentações eram piruetas, parafusos, folhas secas e outras acrobacias.
    Como não podia cobrar dos expectadores que ficavam na praia observando, ele cobrava de quem se arriscava a dar uma voada com ele durante suas peripécias aéreas. Um de cada vez porque só havia um lugar além do piloto. Cada vôo de cinco minutos, o português cobrava cinco mil réis.
   Numa tarde bonita e ensolarada de verão, o português fazia magníficas exibições nos céus da praia da Avenida. O povo assistindo o espetáculo vibrava com o arrojo do piloto, uma maravilha de exibição.
     Entre os candidatos ao vôo surgiu Seu Portela, figura altamente conhecida na cidade, onde tinha uma loja no centro, na Rua do Comércio.
    Eram aproximadamente quatro da tarde quando chegou sua vez. O português colocou Seu Portela na poltrona, prendeu-o com o cinto de segurança, deu-lhe todas as recomendações e assumiu o comando do Garoto.
    Taxiou pela beira da praia de areia dura e extensa, tomou velocidade e decolou em direção ao mar. Rapidamente atingiu a altitude necessária e iniciou as acrobacias aéreas.
   Não demorou muito. Após um arrojado “looping”, deu sinal que estava retornando à praia. Os inúmeros expectadores acharam estranho. Por quê em tão pouco tempo o Garoto retornava ao solo? Seria alguma complicação mecânica? Alguma pane? O teco-teco estava a perigo? Eram as perguntas que faziam entre eles. Formou-se maior expectativa.
    O avião pousou abruptamente e de repente o piloto desembarcou, deixando seu Portela na aeronave.
    O lusitano gritava em direção ao povaréu apreensivo que estava plantado na Avenida, perguntava se alguém dispunha de uma capa para emprestar-lhe, pois havia uma situação de emergência.
    Quem teria, numa tarde maceioense ensolarada de verão, na beira da praia, uma capa para emprestar a quem quer que seja?
    Com a resposta negativa, o português buscou uma alternativa e conseguiu com um pescador que morava em uma casa de taipa e palha ali próxima, um pedaço de pano, ou melhor, uma rota vela de jangada.
      Com o trapo na mão o piloto retornou correndo à aeronave, ajudou o seu Portela a desembarcar e envolveu-o com o velho molambo, levando-o para um local onde conseguiu meios para que o levassem rapidamente para sua residência. Nessa altura a moçada perguntava o que teria ocorrido.
    Acontece que por onde seu Portela passou, entre o avião até a Avenida, deixou um rastro líquido e escuro na areia branca da praia, juntamente com uma catinga, com o fedor de merda, insuportável para quem estava mais próximo.
   Sem esconder, o nobre piloto português contou a história: Assim que levantaram vôo, o seu Portela num grito pediu para descer. Como o piloto já estava preparado para o “looping”, não atendeu aos pedidos e deu aquelas voltas com o teco-teco se curvando no ar, enquanto o acompanhante gritava de medo. Só depois do português ouvir seu Portela gritar que estava todo cagado, ele resolveu aterrizar.
    Foi uma gargalhada geral, os comentários e as galhofas espalharam-se entre as pessoas presentes que estavam assistindo ao espetáculo e assim foi se espalhando na Rua do Comércio, em Jaraguá, no Farol, na Ponta Grossa. À noite Maceió todo já sabia da cagada do seu Portela no avião.
  Por vários dias que se seguiram o comentário era o mesmo, nas escolas, nos bares, nos lares, na zona, nas barbearias, o assunto era a aventura de seu Portela no vôo do Garoto.
    Os estudantes assumiram a chacota, passavam em  frente da lojinha de seu Portela na Rua do Comércio, se divertiam cantando uma modinha que um jovem compôs em alusão a desventura aérea do comerciante. Aliás, muito tocada no carnaval daquele ano:
                               “Marchinha do seu Portela”
                    Eu fui alegre
                    Passear de avião
                    Para mostrar
                    Que sou cabra valentão
                    Mas vejam só,
                    Que eu não posso andar voando
                    He He............
                    Estou me cagando, estou me cagando.
                    Portela não seja frouxo,
                    Não coma mais sururu
                    Quando subir no Garoto
                    Arroche as pregas do........”bolso”.

    Seu Portela tinha bom humor e levou também na gozação. Se importasse com o acontecido, até hoje, em seu túmulo o povo estaria gozando o seu inesquecível e histórico vôo nos céus da Avenida da Paz.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

AVENIDA DA PAZ DOS MENINOS NOS IDOS DE 1950 por Paulo Ramalho



Estava no domingo próximo passado no Auditório do Instituto Histórico, participando do “Concerto aos Domingos”, idealizado, coordenado e comandado pela brava Selma Britto, assistindo a uma apresentação de uma grande pianista, quando chega o amigo irmão de infância Carlito Lima, senta ao meu lado e perguntou:

- Começou hoje às 9 horas?

E eu respondi:

- Não, começou no horário normal às 10 horas, já são 10:45 horas.

Ele olhou para o relógio e disse:

-Pensei que fosse 15 minutos para às 10 horas.

Então eu arrematei, arrancando sorrisos dele:

-Cuidado com o alemão!

Acredito que a chegada do amigo irmão de infância da Avenida da Paz, e a apresentação de pianista, veio à lembrança os carregadores de piano que passavam na avenida, com o piano na cabeça, protegida com uma rodilha de pano, cantando para não errar o passo, e não desafinar o piano.

Por que não lembrar também dos bondes que circulavam pela avenida, havia os de passageiros e os cargueiros, esses foram os primeiros saírem de circulação, tinham a laterais fechadas, apenas janelas na parte superior e porta de acesso, eram mais utilizados por pessoas com bagagens, cestas com compras efetuadas no marcado.

E os carregadores de malas e bagagens da Estação Ferroviária, como já consta em outro escrito, quando chegávamos das férias em União dos Palmares, pegavam nossas malas e bagagens e levavam para nossa casa, sem que tivéssemos que acompanhá-los.

E os vendedores de sorvete e picolé, que nos vendiam na avenida, na Rua Silvério Jorge, na praia, e depois iam receber o dinheiro em nossas casas.

O verdureiro, vendendo de casa em casa, uma variedade de verduras e algumas frutas.

O vendedor de peixe, fresquinho, pescado em jangadas ou nas redes lançadas ali defronte na praia.

As vendedoras de sururu de capote e despinicado.

O vendedor de massa puba a gritar:

-Massa puba é a boa.

O vendedor de beiju, grude, pé de moleque, tapioca, entre outros, feitos em Riacho Doce.

Os entregadores de leite, pão e bolacha que colocavam nas portas de nossas casas.

O engraxate que passava com freqüência em nossas casas, deixando nossos sapatos como novos.

O soldador de panelas.

O amolador de tesouras, tocando pequena gaita, anunciando sua chegada.

O comprador de jornal velho, garrafas e latas vazias.

O guarda civil que zelava pela paz na avenida.

Tudo isso o tempo acabou, mas não conseguiu apagar de nossa memória, tão bom foi aquele tempo.

Finalizo este texto saudosista com parte de um poema do “Poeta da Infância”, Cassimiro de Abreu, que assim escreveu: “Oh! que saudades que tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais!(...)”.

Aos queridos amigos irmãos da avenida, beijo no coração de todos, e fiquem com Deus.
                         Paulo Ramalho-03/08/2015
                         Pramalho.castro@oi.com.br