terça-feira, 29 de novembro de 2011

CAMINHAR BEM PELA VIDA por: Milton Hênio

Já estamos no final de novembro e assistimos a corrida célere do tempo. Particularmente, apesar dos meus 74 anos e 49 no exercício diário da medicina, procuro sentir dentro de mim as portas continuarem se abrindo, apesar de estar no entardecer da vida.

No passado, a imagem de uma pessoa com 60 anos era de alguém desanimado, solitário, sentado em uma cadeira de balanço ouvindo um estridente radinho. Era essa a imagem dos nossos avôs. Os tempos mudaram. O envelhecimento é uma das palavras que sofreu mais modificações nos últimos 10 anos.

Começamos a envelhecer desde o momento em que saímos do útero materno. Cada dia é menos um dia. Hoje vemos inúmeras avós nas academias de ginástica dando verdadeiro show de juventude. E homens com 80 anos praticando esporte e natação como se fossem jovens. Isso é notável. Em todos os tempos o ser humano sempre se preocupou com sua longevidade e aparência. Conta-se que Cleópatra, no Egito, tomava banhos diários de leite para manter-se jovem e com pele alva.

No passado ouvíamos dizer com frequência que o mundo era dos jovens. Hoje, nos tempos modernos, os idosos estão sabendo se cuidar realmente.Diz a OMS que atualmente 870 mil pessoas completam 65 anos a cada mês no mundo. A mesma instituição revela que o mundo terá 1,3 bilhões de idosos até o ano 2040. No Brasil em 2007 tínhamos 11.427 brasileiros com idade acima dos 90 anos. São dados do IBGE.

À medida que passamos dos 50 anos nossa força muscular vai caindo em consequência da queda de hormônios. Nossos neurônios também vão sendo eliminados. É preciso, portanto, ativá-los. Caminhada, respirar oxigênio puro, leitura, bom humor, tudo concorre para sua caminhada tentando alongar o máximo possível esse percurso que se chama vida.

A vida é uma lição de efeitos e contrastes. Todos nós esperamos que as coisas aconteçam num futuro próximo esquecendo que o momento mais poderoso para que as coisas ocorram agora, é hoje. Acordar bem todos os dias é um grande salto na transformação da caminhada em sua vida. Sorria, brinque, tome seu banho de mar, enfrente os obstáculos com altivez. Mexa-se, abandone a preguiça, olhe-se no espelho e veja o melhor de você.

Lembre-se que a verdadeira beleza física e sua longevidade dependem do equilíbrio entre o externo e o interno, isto é, entre o corpo e a mente. Veja bem: a verdadeira idade é a que você quer ter.


GAZETA DE ALAGOAS - 27-11-11

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

MOSSORÓ por Gilca Cinara

“Teve época que tínhamos mais de 100 mulheres perdidas dentro da boate”. Se recorda o filho do famoso Benedito Alves dos Santos, o “Mossoró”, sobre os anos de grande movimentação na Boate e Churrascaria Areia Branca, consagrada o melhor prostíbulo de Alagoas, nos anos 70 e 80, no bairro do Canaã, em Maceió. Aos 65 anos, o aposentado Alberto Nascimento Santos, mesmo contando que está com a memória fraca, ainda traz boas lembranças dos anos dourados do Areia Branca.Entre suas lembranças, “Roberto”, como é conhecido, relata o dia em que deixou o bairro do Jaraguá, ao lado do pai para montar o novo negócio na parte alta da cidade. Benedito Mossoró deixou a sua profissão de pintor para se tornar dono de um bar diferente. O primeiro estabelecimento, onde conseguiu uma grande parte da clientela, foi no próprio Jaraguá. No bairro, permaneceu por longos anos na Rua Sá e Albuquerque, até o governo da época determinar o fechamento dos prostíbulos, em 1967.

“Quando fechou o Jaraguá, meu pai ficou sem saber para onde ir. Ele tinha esse terreno aqui no Canaã, e resolveu colocar a boate aqui para fugir da fiscalização do governo. Ele labutou muito para construir, mas não pensava que o estabelecimento ganhasse tanta fama. Ele cismou em entrar para o ramo”, recorda.

O apelido Mossoró foi dado pelos fregueses, devido ao nome da boate Areia Branca, que lembrava as dunas de areia na cidade de Natal. “O povo foi chegando e ele foi ganhando nome”. Ao falar sobre o pai, Roberto o classifica como uma pessoa “bacana e ao tempo reservada”. “Ele sempre procurou o lugar dele. A maior parte do povo gosta de criticar donos de boates. Muitos homens gostam, mas tem mulher que não gosta deste tipo de lugar”, afirmou aos risos.

O prostíbulo ganhou tanta fama, que virou ponto turístico em Maceió. “O povo que frequentava não era de baixa renda. Se citarmos nomes em público a família não aceitará e vai querer criar problemas”, disse Roberto fazendo referencia ao grande número de personalidades políticas que eram fregueses do Mossoró. A casa também foi visitada por personagens como Altemar Dutra, Vera Fischer, Martinho da Vila e outros.

Das luzes às ondas musicais por todo o Brasil
Rapidamente, as luzes e as mulheres que animavam o local ganharam fama nacional. A boate, inclusive, virou tema de música do sambista Martinho da Villa e do alagoano Djavan.
“... Vou tomar uma azuladinha
E vou convidar vocês
Pra comer uma agulinha
Lá na Praia do Francês
E um casadinho de feijão
Lá na casa do Seu João
E depois vou vadiar
Com as meninas em Mossoró
Só em Maceió
Só em Maceió
É que se pode vadiar
Com as meninas de Mossoró
Com as meninas de Mossoró
Alagoas, Alagoas
Há Alagoas...”, escreveu Martinho da Villa.
Essa situação não serviu para melhorar o local. Mesmo com o passar do tempo e o crescimento econômico, a rua mais movimentada do bairro ainda continua com o aspecto encontrado por Mossoró, em 1969: esburacada, sem saneamento e pavimentação. No local erguido o palácio do Rei da Noite, hoje é preenchido por residências de aluguéis, divididas entre os três filhos. Em um desses imóveis reside Roberto, com a mulher e o neto.

“Depois que ele faleceu passei um ano à frente da boate, mas não agüentei. Os impostos eram muito pesados, na época pagava R$ 1.200 só de energia para tirar esse dinheiro vendendo cerveja. O povo já tinha parado de consumir as bebidas mais caras, onde eu conseguia tirar mais lucro. Desde então continuei morando aqui (Canaã) há mais de 45 anos. Agora penso em deixar o bairro, o que tinha que perder aqui eu já perdi, perdi meu pai”, se emociona Roberto.

Com a fama do Mossoró e a movimentação na região ainda deserta, começou o crescimento do bairro do Canaã, hoje habitado por mais de sete mil moradores. A população, em sua maioria, é oriunda do Interior. Muitas pessoas que trabalharam no Areia Branca fixaram residência no bairro, após o seu fechamento, em 1995. Benedito Mossoró faleceu no dia 14 de dezembro de 1994, vítima de um infarto fulminante. Com a sua morte, o Areia Branca resistiu menos de um ano com as portas abertas.

Na época do sucesso, outros prostíbulos se instalaram ao redor do Areia Branca, que se destacava pela sua organização e pela “excelente” seleção das mulheres. “Quem tinha dinheiro freqüentava o Areia Branca duas, três vezes na semana. Quem não tinha se contentava com outros, como o Bar do Paulo, a Sandra, Eliane e outros cabarezinhos que tinham por lá”, lembra um freguês assíduo do Mossoró, que prefere não se identificar para não ter mais problemas com a esposa.

Para o presidente da Associação dos Moradores do Cannã, José Bonifácio, o fundador do bairro foi Benedito Mossoró. Com o tempo, fábricas foram instaladas no local, os terrenos começaram a ser invadidos por trabalhadores, que deram o nome de sua cidades para as ruas. “Satuba, Porto Calvo, Anadia, Maragogi, Quebrangulo, Jequiá e antiga Rua Camaragibe são os nomes batizados das sete ruas do Canaã”, conta.

“O Canaã para nós hoje é uma cidade. Tem muito gente que saiu daqui a época quando começou o crescimento do bairro, que hoje quer voltar e não tem mais condições. O bairro se desenvolveu muito. Hoje temos uma população de mais de sete mil moradores”. Mesmo com todo o desenvolvimento, Bonifácio lamenta a discriminação da área onde funcionavam os prostíbulos, esquecida pelo poder público.

A noite de gala no Mossoró
O aniversário da boate era comemorado em grande estilo. Todos os anos, Benedito Mossoró oferecia uma festa para sua clientela, regada com muita bebida, música e o glamour das suas meninas. Todos seguiam o estilo elegante do grande anfitrião da festa, que tinha sua preferência pelo terno branco, marca registrada do mais conhecido boêmio alagoano.
“A festa era com todo mundo de sapato alto e mulheres com vestidos longos. A fila de carro era grande, a cerveja era de graça, de 50 a 100 grades de cerveja. A festa começava no final da tarde e antes das 22h a bebida já tinha acabado. O povo devorava tudo. Todo ano ele dava essa festa. Ele era tão ruim, que ele fazia isso. Ele ajeitava muito os clientes, ai você tinha que voltar, ali é bom e vou ter que voltar”, disse Roberto

As meninas do Mossoró
A beleza das meninas do Mossoró encantava quem por lá frequentava. “Mulheres selecionadas a dedo”, riu o filho do empresário da noite. E assim que muitos fregueses da época qualificam as meninas. Para trabalhar no Areia Branca não bastava apenas ser bonita, mas tinha que saber agradar ao cliente. Tinha que ter molejo.

Apesar da renovação das meninas ser sempre constante, muitas histórias de amor nasceram com as visitas habituais ao estabelecimento, como é caso do aposentado Cícero Lima. “Eu me apaixonei por uma das meninas chamada Daniela. Por pouco não me casei com ela, como fez o meu primo que casou com outra menina do Mossoró, e construiu uma família com três filhos e netos”. O trecho relatado por Cícero se assemelha a tantos e tanto casos. “Hoje muitas das mulheres que trabalharam no Mossoró estão casadas e são mães de família”, conta, relembrando que elas vivem apenas nos sonhos dos antigos clientes.

Uma pessoa em Recife se encarregava em trazer as meninas das cidades de Aracaju, Caruaru, Recife, Campina Grande até Maceió. Algumas delas, como já trabalhavam no ramo há muito tempo, chegavam ao Areia Branca sozinhas, acompanhadas apenas ‘da cara e da coragem’. Todas elas dividam os quartos construídos por Benedito Mossoró. Em época de grande movimento duas a três mulheres moravam no mesmo quarto. “Ele (Mossoró) ia buscar também. Mas na época ninguém podia trazer duas, três mulheres no carro não que a Polícia pegava, porque sabia que era tráfico de mulheres”, disse Roberto.

Bem apresentáveis, elas não desapontavam nenhum cliente que as convidavam para também fazer companhia em festas sociais. “Lembro-me que nos finais de ano, eu e um primo pegamos cinco mulheres do Mossoró e levamos para uma festa no Clube Fênix. Elas eram muito bonitas, educadas e bem vestidas circulavam normalmente em todo lugar. Só sabia o que elas faziam quem lá frequentava. Na rua ninguém comentava nada, pois quem via achava que o cara estava acompanhado da esposa. Isso aconteceu outras vezes, inclusive na festa de formatura do meu primo no Iate Clube. Elas se comportavam melhor que certas mulheres donas de casa que quando enchiam a cara ficavam loucas nas festas”, contou um empresário que preferiu manter-se no anonimato.

Poucas confusões foram vista dentro da boate Areia Branca, graças à organização do Mossoró e a fiscalização do gerente, o senhor Djalma. Da amizade existente entre seu pai e Djalma, Roberto jamais esqueceu. Se vivo estivesse, Djalma seria o grande narrador das noites boemias e festivas no Areia Branca. Quando faleceu, há 16 anos Benedito Alves, o Rei da Noite, deixou a casa em pleno funcionamento, com nove funcionários e uma dezena de mulheres. Clientes assíduos, ao relembrar das aventuras no Mossoró enchem a boca para dizer: “Era um ambiente quase familiar”.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

MENINOS DA AVENIDA por Paulo Ramalho

Muitos

Éramos

Naquela

Irmandade

Nadando e fazendo tudo que tinha direito.

Obtendo

Sonhos


Durante

Anos


Amigos

Vivíamos

Enturmados

Naquela

Intimidade

Duradouro

Até........

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

AS “PELADAS” DO HOTEL ATLÂNTICO por Murillo Mendes

UM “RACHA” QUE, AFINAL, UNIA

Ontem, sem que programasse, passei pela Avenida da Paz e não resisti diante daquela que foi a mais bela de todas as nossas belas praias. Premido pelas boas recordações suscitadas, resolvi descer do carro e percorrer, à beira d’água, o trecho em que, na minha adolescência/juventude, quase que o habitava, pois que nele desfrutei o melhor desse augusto tempo. Bem aventurado, foi exatamente ali que iniciei a construção do amor da minha vida; amor sem fronteiras, verticalmente dado e recebido, fértil e frutuoso, que nem a inclemência da morte foi capaz de minimizá-lo, ou de extingui-lo.

Nele, senti-me, novamente, ávido de viver em plenitude; despertei, em mim, o jovem sonhador e projetista que tudo podia... que muito queria. O fato é que revivi, em intensidade e nesses breves instantes, no trecho que mediava os trapiches que não mais existem e o então florescente Hotel Atlântico, um turbilhão de lembranças significativas que, ainda, me animam e sustentam, e estimulam-me para o viver amplo.

Houve um tempo – bendito tempo – em que essa praia sediava, em todos os domingos, em suas manhãs ensolaradas, uma das mais disputadas “peladas” futebolísticas de nossas encantadoras orlas praieiras. O seu palco, frontal ao Hotel Atlântico, tinha dimensões imensas e irregulares; era limitado pela maré, de um lado; do outro, pelo capinzal rasteiro que, sutilmente, homiziava insuportáveis carrapichos. O jogo era disputado, assim, em aplainadas e firmes areias trabalhadas pela maré, e nas frouxas e cansativas areias brancas que guarneciam e ornamentavam o mar azul que se descortinava ao fundo.

As equipes eram constituídas, sempre, através de chamada alternativa dos presentes; realizada por dois dos seus mais inveterados habitués; quase sempre, Júlio Normande e Betinho Perrelli. Iniciado o “racha”, ele só acabava depois de passado o “meio dia”. Não havia árbitro. Faltas e “goals” eram confirmados e aceitos de modo consensual; algumas vezes, no grito. Neste caso, nunca sem acirradas discussões que eram aliviadas por piadas e chistes que arrefeciam os ímpetos e recompunham a camaradagem.

Era jogo “pra valer”. Não obstante isso, os disputantes, arengueiros em sua maioria, jamais saíram para a “via de fato”. As derrotas eram naturalmente assimiladas. As discordâncias e o inconformismo dos derrotados eram domados pela esperança de que o troco viria na próxima “domingueira”... e, isso bastava, era o suficiente para se manter intacta a harmônica camaradagem. As discussões teimosas eram soterradas pelas “tiradas” inteligentes; pelo caçoar oportuno; pelo humor inofensivo e bem colocado, que temperava a doçura dessa convivência semanal, garantindo-lhe mansidão e pacificidade.

O “racha” do Hotel Atlântico era convergência, união e respeito mútuo. Fez-se em amizades inabaláveis que resistem e prevalecem até hoje; não foram afetadas pela oxidação do tempo. Seus participantes, na realidade, concertaram uma franca convivência que se mantém atual; sobremodo, como exemplo de coerência e de valorização individual.

Antecipando-me em desculpas pelas prováveis omissões, exalto e nomeio, aqui, os lembrados sujeitos ativos dessa eloqüente demonstração democrática; marcadamente fraternal e igualitária: Júlio, Zeca e Henrique Normande; Zé e Mané Ramalho; Fernando e Betinho Perrelli; Paulo Mendes; Gerson Omena; Joubert Scala; Rubinho Mastigada; Vetinho e Claudinho Pacheco; Claudinho Ferrário; Pai Manu; Arroxellas; Afrânio Montenegro; João Simões; Cleantho Rizzo; Luizito; Louvain Ayres; David; Maso e Dirson; Napoleão Moura; Juvencinho Lessa; Zezé Barbeiro; Peitudo; Ascânio Valença; Licito Cansanção; Eraldo; Aurélio Munt; Miguel Rosa; Tonico; Fernando e Toinho Cotrin; Paulo, Maru, Guy e Mano Gomes de Barros; Elísio Aguiar; Zirreli; Eduardo Jorge; Pedro Galinha...

Salve, pois, o futebol praieiro do Hotel Atlântico, por tudo que ele pôde oferecer e edificar.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A VOLTA DO FENIANO por Paulo Silveira

Que foi, foi, uma festa linda, Maravilhosa. A alegria dominando o vasto salão. As serpentinas traçando riscos multicores. As chuvas de confete prenunciando um grande carnaval. Todos riam contentes. Era como se fosse uma enorme família. Fosse não. Era mesmo uma enorme família “feniana” a espera da chegada do ano novo – 1967.

De repente, a orquestra toca o Hino Nacional. O silêncio agora é profundo. Ouvia-se somente a música, símbolo da Pátria querida. Os emotivos faziam força para não chorar. Outros, recordavam terras distantes. Parentes que partiram para sempre.

Logo mais, chegaram os abraços. Lábios colavam-se nas taças de champanhe. Era a família reunida, democraticamente. Jovens e velhos. Todos, todos cantavam e dançavam saudando o ano que vinha do berço que se chama tempo.

Bem que essa missão não é minha. De escrever ou descrever uma festa, que não sou cronista social. Mas faço esse registro como secretário do meu querido Clube Fênix Alagoana, do clube da minha mocidade e de minha velhice. Faço esse registro como se estivesse redigindo uma ata.

E recordo. Recordo um passado gostoso. Dos dias bons. Dias maus. A segunda grande guerra envelopando minha geração em fardas do Exército. Os Natais que eram pretensiosos, envoltos no “Black-out”. Os submarinos nazistas, eram como hienas no fundo do mar, farejando a costa brasileira. Mas a velha Fênix nos aconchegava, e dentro de seus salões eu e meus colegas éramos novamente “fenianos”, fardados de branco. Esquecíamos o que de ruim nos esperava.

Lá está nesta primeira madrugada de 1967 o Barnabé Oiticica. Não mais é o jovem tenente de artilharia. E’ o senhor casado, usineiro, cercado da esposa e filhos. O seu menino repete as façanhas do pai, e vem para o salão dançando com os brotos de hoje.

No meio dessa alegria, eu sinto falta de Hermann Almeida. Engulo uma dose de uísque. Quero afogar minha saudade. Matá-la. Esquecer. Brincar. Sorrir. Se a vida é tão curta e ninguém sabe qual o primeiro que partirá!

Aos pouco, a velha e querida Fênix me domina. Chego a ser feliz. Estou com minha esposa, minha filha, meu futuro genro, meus irmãos, e meus sobrinhos. E devo tudo isso ao meu clube, que me retirou da cama, da meditação, me transformou num sujeito alegre, quando minutos antes, eu era uma espécie de escafandrista, mergulhado no fundo de um mar de recordações, vendo meu pai, minha mãe, meus amigos. Amigos como o motorista Franklin Bezerra – o seu Franco – quase um irmão, que durante tantos anos, nunca me largou.

A Fênix é meu doce refúgio. Estou alegre, já agora quando a madrugada vem. Que bom a gente abraçar afetuosamente os conhecidos. Desejar a todos bons anos.

Repentinamente, ouço a voz do Presidente em exercício Ardel Jucá me convocando. Processa-se a eleição e posse da nova “glamour-girl” da Fênix, a linda menina-moça Laura Baia Quintela, um bibelô, um poema transformado em gente.

Mas a grande surpresa veio em seguida, quando Ardel Jucá, com sua voz compassada, disse:

Convido para vir até aqui o maior de todos os foliões “feniano”, o Sr. Luiz Ramalho de Castro.

Acredite leitor, quase que as palmas faziam tremer os alicerces do ginásio. Estava ali Luiz Ramalho, o seu Ramalho da Costeira, o folião dos grandes carnavais, o Rei Momo espontâneo que brinca com ingenuidade. O folião atravessou várias décadas fazendo o passo com sua esposa, seus filhos e netos.

Estava ali um homem digno, com os cabelos brancos como o de um Papai Noel, bondoso e generoso. Estava o seu Ramalho da Costeira que de seu bolso pagou muitas passagens para que jovens numa segunda classe fosse tentar a vida no sul, como aquele personagem cancioneiro popular que diz:

“Tomei o Ita no Norte”.

E foi essa a primeira emoção de alegria que experimentei neste ano de 1967. Quando o sol, que é um astro-rei, surgiu na avenida, prateando o mar, saudando o ano novo, eu pedi a Deus pelo meu povo, pelos meus amigos e até pelos meus inimigos, se é que os tenho. Era uma grande hora que devo registrar para a história social de minha terra. O Ardel Jucá convocando um outro Rei, Rei do Carnaval, Rei da Alegria, Rei pela bondade de seu coração, pela sua popularidade espontânea. O seu Luiz Ramalho, era ali, naquela festa de confraternização, a mais humana figura que encheu de satisfação, de prazer aquele mundo de gente que registrou com suas palmas – palmas dos jovens e velhos – que saudaram com o ano novo A VOLTA DO FENIANO.

UM REI TAMBÉM MORRE por Paulo Silveira

Os súditos têm a impressão que o rei não morre. E quando isto acontece, surge um desapontamento geral, embora o reinado continue a existir pelo sistema de direito em que se apóia a coroa e que oferecer oportunidade para o sucessor ocupar o trono.

Aos poucos tudo vai se adaptando dentro da paisagem. Quase sempre o sistema é parlamentarista, e o rei vivo, reina, mas não governa.

Por duas vezes, num regime tradicionalmente republicano democrático, o mundo sofreu o impacto da renúncia de cidadão um presidente. Quando ele morreu, simples cidadão da França, desapareceu também um sistema de governo que um só Charles De Gaulle sabia impor para tirar sua pátria dos abismos fabricados pela ambição dos aventureiros.

Era um rei sem coroa. Um rei que criou o “Degaulismo”, que é também um sistema de direito constitucional fortalecendo o Poder Executivo, para evitar crises e anarquia.

Existem muitos reis sem coroa. Reis que levaram e ainda levam alegria para o povo. Reis como Maurício Chevalier, como Charles Chaplin, como o atleta de pernas tortas, Garrincha, hoje envolto nas suas angústias, nos seus complexos. Rei como Pelé.

Pois Alagoas perdeu um rei. Um rei sem coroa. Mas um rei popular. Um rei que nos carnavais, com sua alegria, comandava multidões democráticas. E cantava, e dançava, e sorria, com aquela mesma disposição que dirigia os “itas”, e os “aras” da Companhia de Navegação Costeira, organização que representou tantos anos em nossa terra e que o tornava um LEADER, um CICERONE, um relações públicas, como se diz hoje, do cais do porto de Maceió.

Morreu Luiz Ramalho de Castro. A cidade está crescendo. Espalhando-se pelos tabuleiros, pelos mangues, pelas praias. Subindo verticalmente através de seus arranha-céus.

Mas, com a morte de Luiz Ramalho de Castro, Maceió ficou menor, pois a grandeza da alma desse homem que partiu não tinha limites.

Morreu um rei que era um bom pai, bom esposo, bom amigo. Tinha que morrer, porque chegou seu dia, porque diante da morte até um rei bondoso capitula.

Para o povo, todavia, Luiz Ramalho ficará na lembrança de um toque de clarim quando fevereiro chegar. Porque será carnaval, uma festa que encherá de recordações os que amavam você, Luiz. Você que era bem um símbolo de bondade num mundo de traições, de inveja e de terroristas covardes que espalham a morte.

JORNAL DE ALAGOAS – SÁBADO, 15 de abril de 1972

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

FATOS E RECORDAÇÕES DA MINHA INFÂNCIA NA AVENIDA por Eurico Uchoa

Como é prazeroso relembrar aqui alguns fatos de minha infância. A amizade que iniciamos naquela época continua sendo marcante em nossas vidas. Nossos encontros mensais de hoje são a prova disso.

BANHOS DE MAR – Os banhos de mar na praia da Avenida eram deliciosos e as brincadeiras na areia também. Mas estávamos sempre atentos ao que se passava em volta. Certa vez, o irmão do Seu Heráclito Lima, que morava no sul, chegou por aqui. Ele tinha o hábito de dar um mergulho diário no mar. Fincava um pedaço de galho de amendoeira na areia, marcando assim o local onde havia escondido a chave de casa. Certa vez, assim que ele foi mergulhar, fincamos rapidinho um monte de galhos parecidos...

MANGAS ROSAS - Minha casa era vizinha da D. Maristela – mãe do Lelo, Lula, Tereza e Clarissa. Subíamos o muro da Villa Olinda (nome da nossa casa) para alcançar o telhado e de lá atingíamos a mangueira. As mangas rosas eram deliciosas e sempre saboreadas ali mesmo na calçada pela turma da Avenida.

CARRO DO DR HOMERO - A “fobica” do Dr. Homero era pilotada pelo Tonho que todas as manhãs conduzia os estudantes no Centro da cidade, para os Colégios Anchieta, Batista, Diocesano e Estadual. Lá ia eu, minhas irmãs e outros colegas. Se a boléia daquela camionete Ford falasse...

SAPATO DO SEU LUIZ - Lembro-me do famoso sapato preto do Seu Luiz Policarpo (empregado do Dr. Homero). Foi usado por mais de 20 anos e nunca soltou o selo de fabricação.

ROLETES DE CANA - Alberto e Valdo disputavam sempre o último rolete de cana na porrinha!!!

BANQUINHO DA PRAIA – Acirradas discussões sobre política aconteciam antes das eleições no banco da Avenida , em frente ao Beco Emilio Cardoso, principalmente na época da turma do Brizola.

CLUBE FÊNIX ALAGOANA – Das festas tradicionais do clube (aniversário, reveillon e carnaval), temos boas e divertidas lembranças...

JARAGUÁ TÊNIS CLUBE - Minha avó, mãe de meu pai, morreu numa quarta-feira e no sábado era o dia da Festa Macabra no Clube Tênis. Pedi para Tia Bel fazer uma fantasia de “Alma Penada” dizendo que seria usada pelo Ricardo Peixoto. No sábado, disse para família que iria dormir fora de casa, mas fui mesmo para festa. Na volta, traído pelo álcool, esqueci do que tinha inventado e ao voltar em casa, meu pai se deparou com a cena. Seu Ribemont, meu pai, ficou irado com o desrespeito pelo luto. Tentei explicar que de qualquer forma, era uma FESTA MACABRA, com caixões e velas por todos os lados, mas não escapei de 30 dias de castigo sem sair de casa.

FAMILIA GALVÃO – Lembro muito da família Galvão, vizinha da AABB na Avenida. Os filhos, bem menores que a gente, sempre nos ajudavam guardando lugares no cinema da AABB das quartas-feiras. Augusto Galvão, hoje um grande amigo, é um deles. Ele, Isolda e seus irmãos menores foram sempre os primeiros a chegar à sessão.

DIA DE NATAL – Por muitos anos, logo depois que ceávamos com nossos familiares, Emílio, Lelé, Tonho, Cuíca, Ricardo e outros ( a memória já não me ajuda ), íamos a pé até a festa da praça da Faculdade de Medicina, no Prado. Certa vez fomos assistir a um show de “Jararaca e Ratinho”, no palco montado perto do Memorial. Para tirar onda com Ricardo, que ia abrindo caminho na multidão, Emílio deu um tapa na careca do Ratinho e saiu despistando. A confusão formou-se em torno do Ricardo que estava na frente. Mas como nossa turma era “todos por um e um por todos” fugimos juntos do ambiente pesado !!!

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

OS 15 ANOS DE BEBÉ por Chiquinho Nemésio

Albertina Nonô Lima, filha de D. Santina e profº. Albérico Lima tem como único irmão o Dr. Alberto Nonô Lima (CUCA), hoje famoso advogado de Alagoas.

Dr. Albérico Lima, pai de Bebé, foi meu professor de contabilidade, no Curso de Ciências Econômicas, que funcionava no prédio da “Perseverança”, á Rua do Sol! Quando lecionava, sua movimentação na classe era quase nenhuma, porém, ficava indo e vindo, em um passo adiante e outro para trás, daí o apelido de “professor Pastoril”.

Mas, vamos ao aniversário de 15 anos da Bebé.

Bebé sempre foi uma menina esplendorosa e radiante. Era realmente a “MUSA” da Avenida da Paz!

Já mocinha, quando vestia seu maiô preto (naquele tempo não se usava biquíni), parava nossa tradicional pelada de futebol ou vôlei! Realmente Deus ajudou muito a nossa Musa!

Pois bem, D. Santina permitiu que a filha convidasse toda a turma da Avenida para a festa dos seus 15 anos! Principais Convidados: Diógenes Gama, Orlando Meira Góis, vulgo CABANA, os primos Betuca e Carlito, Eduardo Jorge, Zé Maria irmão do Cabana, Werter e Wolney e muitos outros!

Sua mãe que era muito pródiga mandou servir bebida e comida á vontade! Nós, bons “de copo”, enfiamos a cara. Resultado, descobrimos que havia uma bebida nova para nós! GIM Tônico! E enfiamos a cara!

Resultado: Eu lembro que subi em uma mesa, fiz discurso, dancei e, no fim, tomei GIM “puro” sem água tônica. Foi um porre geral. Eu estava sozinho em minha casa e levei uns bêbados para dormir lá, pois, meus pais estavam viajando. Terminamos a farra bebendo uma garrafa de vinho que papai havia deixado em cima da cristaleira!

Resumo da ópera: Cabana que estava de “paquera” com a aniversariante ficou na mão!

Eu até hoje, nunca mais tomei GIM na minha vida. Foi uma festa inesquecível!

GINCANA DE LAMBRETA por Chiquinho Nemésio

No ano de 1958, eu já era funcionário do Banco do Brasil. Comprei na “Casa Normande” a 1ª lambreta que circulou em Maceió. Ia para o trabalho de lambreta, ia para a Perseverança de lambreta e, á noite levava meu amigo Betuca na garupa até o bairro de “Cruz das Almas”, pois namorávamos duas irmãs!

Pois bem, certo dia chegou a Maceió um “galego” italiano, representante da marca Lambreta e organizou uma gincana (vide fotos).

Concorri formando dupla com meu irmão Hugo, também do BB, e representamos a AABB, que nessa época funcionava na Avenida, junto da minha casa. A competição foi na Avenida da Paz. Não precisa dizer qual foi a dupla vencedora: Eu e meu irmão.

Assim era a nossa querida Avenida da Paz!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

OS SINOS DOBRAVAM por Paulo de Castro Silveira

Bem que saí de casa para ir ao encontro do Emilinho – do Emilio Cardoso Filho. Antes, teria uma audiência da Junta de Conciliação e Julgamento, onde três gordos pontificavam. Eu, o Hebel Quintela e o Pedro Barbosa Júnior.

Hebel estava apressado.

- Vou ao enterro do Emilio, dizia.

Sei que minhas mãos tremiam. Também iria levar o meu sobrinho espiritual à última morada. O sobrinho filho do Emilio Cardoso e dona Elizabeth. Sabia que chorava, como choro agora, quando escrevo esta crônica de saudade. Repentinamente, o Pedro, encerrando a audiência, disse:

- Os sinos estão dobrando.

E aquele toque plangente, saudoso, de finados, me acovardou. Emilinho, não fui ao seu enterro. Fugi chorando de asfalto afora. Fui bater no “Mirante da Sereia”, lá para as bandas de Pratagy. E vi você, na piscina natural, menino, comigo, seu pai, sua mãe, seus irmãos, minha esposa, minha filha, naquelas tardes dos sábados em que fazíamos nossos folguedos em família, e você, Emilio, me pedia a benção, talvez pensando que eu fosse seu tio de verdade.

O mar era agressivo. As ondas não deixavam que eu ouvisse a voz de seu pai, me consolando, porque ele era um forte. Mas a voz dos sinos superavam a voz das ondas. E eu sabia que naquela hora você descia à sepultura, e podia ver dona Elizabeth e suas irmãs chorando, chorando, e então pude pronunciar baixinho aquela frase de John Danne: “ A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não me perguntes por quem os sinos dobram: eles dobram por ti”.

Pois, Emilinho, seu tio não pôde ir ao seu enterro. Não vai a sua missa. Mas, acredite, menino, que sofro como se perdesse um parente querido, porque você era como a Branca Rosa, o Draute, a Denise, a Estela, de quem você tanto gostava; a Cristina, Ricardo, o Dalminho, a Arícia, a Yara, a Martha, o João, o Eduardo, o Cuca, o Lelé, a Socorrinho, o Eurico, o Guilherme e Ricardo Braga, como seus irmãos, uma partícula dos meninos daqui da minha rua, da Avenida da Paz, meninos que sempre amei, e que podem crescer, mas que continuarei a chamar de meninos, porque os pais, os tios, os padrinhos, os amigos sinceros guardam na lembrança, as peraltices daqueles entes pequeninos, que crescem, mas, que simbolicamente são sempre pequeninos, e suas travessuras são subsídios para histórias cheias de saudade.

Por isto, menino, menino Emilio, sentindo sua partida temporária eu continuo ouvindo os sinos dobrando, chorando, como eu choro agora, Emilinho, para dizer finalmente, como qualquer pai, como qualquer tio:

- Deus te abençoe, meu filho.

GAZETA DE ALAGOAS – 13 de setembro de 1968

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

DONA SANTINA NONÔ por Cuca

Quando fiz um esboço sobre o professor Béu, comprometi-me em fazer algumas linhas sobre Dona Santina; mas, por ser de uma personalidade bem mais forte e polêmica, fiquei empurrando o compromisso, mas, agora, desejo cumprir a promessa.

Analisando sua forte presença, defino-a, como uma pessoa extremamente valente e generosa. Nos meus sessenta e seis anos bem vividos, afirmo que conheci poucos homens com a coragem de Dona Santina; o sentimento de medo, jamais foi demonstrado em qualquer situação.

Filha predileta do velho Nonô da Mataraca, respeitado por sua coragem e palavra; tinha o nome de sua avó, mais um fato para a proteção explícita do pai.

Muito prendada, tocava violino, pintava, costurava, cozinhava, atirava, adorava andar a cavalo, inclusive, era conhecida pois seu ginete, presente do pai, pulava todas as porteiras da fazenda Mataraca, mesmo estando de selim que era comum à época, sem qualquer apoio; todavia, tinha como marca indelével sua opinião, que defendia com unhas e dentes, adorava uma discussão, para extravasar seus pontos de vista, sempre bem equacionados e baseados em leituras e pesquisas.

Teve um único e grande amor em sua vida, o Béu, com o qual trocava cartas diárias, pela soupa, que fazia o trajeto Maceió/Atalaia, defendê-o até ficar viúva aos oitenta e três anos, mesmo separada já, há mais de vinte anos. Atribuo à causa da separação ao tio Pedro e Derzuíla que tinham ódio de mamãe, vez que ela nunca os bajulou; inclusive, comprou uma briga com eles, pela não aceitação de receber ALBERTINA em Recife, onde foi estudar no Colégio Regina Passe, ficando com a prima Geruza e Dr. Hercílio Auto nos finais de semana. Sendo considerado o rico da família, Pedro quando vinha a Maceió, era alvo de muito zelo pela família, mas Dona Santina não dava muita bola e sempre se impôs.

Dona Santina era uma pessoa brava e destemida, citarei casos que presenciei e participei, pois após a separação, voltei para morar com ela por muitos anos, mesmo depois de casado e, ela foi uma companhia assídua em minhas idas as minhas propriedades em Atalaia, S. Luzia do Norte, Traipú, Tranqüilidade e casa da praia em Coruripe.

Houve um desentendimento com o empregado da Tranqüilidade e dei um prazo para desocupar a casa, mas ele vinha enrolando a mim e ao Waldo; disse ao Waldo que iria retirá-lo por bem ou por mal; sempre tive porte de arma, mas esse dia, levei um rifle 44, uma caixa de balas, deixei com D. Santina no carro e saí para retirar o administrador, que, graças a Deus, prontificou-se a sair, retirando suas tralhas para o caminhão. Estava tranqüilo, pois tinha plena fé em mamãe.

Em outra oportunidade, ia para Coruripe no fusca de papai e, perto de S. Miguel dos Campos uma carreta ao nos ultrapassar, jogou-nos no acostamento, quase virando o carro; após o susto, seguimos viagem e, mais adiante em uma subida vimos a bendita carreta, tendo d. Santina pedido para que eu emparelhasse, pensei que iria dar uma bronca; mas, qual a surpresa ao vê-la abrir o porta luva, onde colocava o revolver , retirá-lo e apontar para o motorista , dizendo que respeitasse os menores atirando no pára-brisa, espatifando-o; era uma exímia atiradora, seguimos viagem.

Tendo comprado propriedade em Traipú, e precisando plantar capim, convoquei meu compadre Aloísio do Pilar para passarmos uma semana na fazenda que não tinha luz elétrica, apenas uma pequena palhoça com dois quartos, sala, cozinha e um sanitário, onde tinha um tanque que trazíamos água de uma cacimba atrás da palhoça. Sabendo de minha pretensão, mamãe disse que iria e ajudaria fazendo a comida dos peões e a nossa, não concordei, mas quando ela encasquetava, não tinha jeito. Levamos dois candeeiros de querosene, três redes, algumas roupas, toalhas, panelas, talheres, baldes etc.; e fomos na aventura. Mamãe ficou num quarto e eu e meu compadre no outro; a noite começamos a ouvir uns assobios ao redor da casa e, dona Santina do quarto, perguntou ao Compadre se era cobra, ao que o mesmo informou ser de caninana, cobra muito venenosa e comum na região. Tendo ela informado que só deveríamos descer da rede com o candeeiro, sem qualquer destemor. Logo cedo ia com o Sr. Aloisio buscar o pessoal no povoado de Olho D´a gua e só voltavam ao entardecer, a comida era preparada por mamãe; depois de deixar o pessoal; seguíamos os três para Traipú, onde fazíamos compras e tomávamos banho no rio S. Francisco. Passamos uma semana em Traipú, ela não reclamava, não tinha frescura, era notável.

Nas viagens que fazia para Paulo Afonso, na Bahia, para farrear e namorar, era assídua, pois adorava o sobrinho Geraldo, Laiz e sua irmã D. Argentina que era muito parecida com ela em todos os sentidos. Ficávamos na vila da Diretoria na CHESF, onde Geraldo era Diretor de Compras. Fazíamos pelo menos três viagens por ano, acompanhados por Clailton, Adilson e uma vez Emílio.

Era muito sincera e extrovertida, as pessoas a adoravam ou odiavam, não tinha meio termo; tomou medidas erradas ao meu ver, como a educação de Bebé, exigia muito e a obediência era total. Uma ocasião foi a Praça do Pirulito e trouxe Albertina pela Orelha, para que a mesma não se encontrasse com um flerte.

Como mãe, era uma leoa, nos defendia, alertava, observava e acompanhava nossos passos, principalmente de Albertina. Quando fiquei em 2º época na 3º série ginasial, fui obrigado a decorar todo o livro de ciências naturais, fiquei no sótão por um mês inteiro; tomava lição todas as tardes, com uma palmatória na mão. No ano seguinte, me enviou para o reformatório de Sergipe, o Colegio Jakson de Figueiredo, onde terminei o ginasial como interno.

Por ser malandro, levei muitas surras, principalmente por ir ao cais do porto para pescar, fumar escondido, tomar umas cervejas e, como não sabia mentir para ela, não tinha jeito. Mais devo a ela meu estímulo para ser uma pessoa de caráter.

Depois da separação, cismou de viajar para conhecer outras paragens, realizou varias excursões nos Estados Unidos, Terra Santa, Europa, Asia a as Américas do Sul, do Norte e Central.

No final da vida, gastou tudo o que tinha com seu neto, que adorava, e era correspondida, mas no meu entender, o prejudicou por demais.

Era minha fiel escudeira, elem de ir comigo toda semana para a fazenda, também acompanhava-me nas viagens para impetrar ações judiciais no interior, nas compras de gado, nas visitas aos compadres Madeiro e Geraldo, a Hidelbrando Sintra, Antonio Amaral, Biegas e vários outros.

Por idéia dela, fiz duas gincanas com meus sobrinhos e amigos do Albertinho, na Branca, comemorando antecipadamente seu aniversário; para ajudar levava tia Coralia, os meninos adoravam. Também por mais de uma vez levei para a fazenda a pedido de mamãe, suas irmãs Corália e as duas Marias que inclusive colocavam nomes no gado.

Foi a primeira pessoa a levar às sobras das refeições, para a criançada da fazenda, que esperavam por ela para almoçarem; isso há mais de 20 anos, que hoje é natural e corriqueiro.

Solicitava das amigas, roupas usadas, remédios, um kit de recém nascidos com banheira e mais de 10 itens que bordava e pintava fraudas, lençóis, etc.; doando-os ao empregados de minhas propriedades, onde realizava todos os anos as festas de São João e Natal, fazendo comida e dando presentes, aos funcionários, mulheres e filhos.

Comprava sementes de hortaliças, conseguia plantas e roseiras, fazendo e cuidando de hortas e canteiros. Todos os empregados tinham um terreno para plantarem verduras e criarem galinhas; sempre sob sua supervisão.

Contudo, depois de levar uma queda em seu apartamento e quebrar o fêmur, mesmo após a operação e colocação de pinos, mudou-se para Ponta Verde e, deixou de sair de casa, entrando em depressão, entregando-se à doença.

Já sem sair de casa, pediu-me para que fosse enterrada no Pilar, junto ao seu pai; mas o problema era que o mausoléu onde estão enterrados vovô e vovó é pequeno e tio Celso não aceitou seu pleito, abriria um precedente.

Mais indo ao cemitério, constatei que logo atrás do túmulo de meus avós maternos, existe um grande mausoléu da família Lima, de meu pai. Então, passei a cuidar do mesmo; e nele fiz o enterro de minhas tias Maria Alice, Virginia, papai e mamãe, que ficou ao lado de vovô Nonô, como desejava.

Mamãe veio a falecer aos noventa anos, praticamente fora de si, mas sofreu pouco, graças a Deus, e deu muito menos trabalho do que papai que sofreu mais e tinha plena consciência, sempre pedindo para morrer.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

UM PUXÃO DE ORELHA por Paulo Ramalho


O encontro mensal dos Meninos da Avenida ocorre sempre a partir das 12 horas, na primeira sexta-feira, agora no Restaurante Candelabro, no térreo do Clube Fenix Alagoano.

Este mês foi no dia 5 próximo passado, que apesar de uma pequena freqüência Eu, Alberto Nono, o Cuca, Carlito, o escritor e Secretário de Cultura de Marechal Deodoro, Lelé, o neguinho, Guilherme e Ricardo Braga, Eurico Uchoa e Sérgio Nobre, houve uma grande satisfação e alegria, pelo comparecimento de um avenidense, que já por diversas vezes havia dito que ia, e ainda não havia dado a satisfação de sua presença.

Trata-se de Roberto Mascarenhas, carinhosamente chamado de Betinho Mascarenhas, que morou em uma casa que tinha a estátua de dois leões na entrada, vizinha ao atual Museu Téo Brandão, antiga residência dos Machados.

Que a freqüência reduzida não o desestimule a voltar outras vezes, e se possível com seu irmão Jouber , que veio a ser meu primo, pois casou com Nina Maria prima irmã, filha de minha Tia Zuíla , irmã de minha Mãe .

Foi neste almoço que levei um puxão de orelha de meu amigo irmão de infância e vizinho, Guilherme Braga, o Guila na intimidade.

Quando escrevi Mais Um Causo dos avenidenses, que teve como figura central Bené, o Benedito Bentes, disse que ele morava quase vizinho a nossa casa, apenas uma nos separava, mas não falei quem morava na casa que nos separava.

Venho agora me retratar, pedindo desculpas pela minha falta, e dizer que os moradores eram os Braga, Dr. Ulisses , casado com Dona Creusa, pais de nossos amigos irmãos de infância, Guilherme e Ricardo que tiveram como babá a saudosa Marina.

Dr. Ulisses, advogado brilhante,intelectual, muito distinto , educado e professor titular e efetivo da Faculdade de Direito de Alagoas onde preparou grandes advogados que militam em nosso e outros estados.

Dona Creusa que veio a falecer quando do nascimento do terceiro filho Felipe, era uma senhora fina e muito educada.

Não sei se o Guilherme se lembra, que encontrei-me com ele na Praça Monte Pio, próxima a Faculdade de Direito, onde seu pai lecionava, hoje sede da Ordem dos Advogados de Alagoas, pouco depois do falecimento de sua genitora, e disse, Guilherme sonhei com Dona Creusa, contei-lhe o sonho e ele saiu com os olhos cheios de lágrimas.

Antecedeu aos Braga os Normandes, que depois foram morar na Fernandes Lima, esquina com a Rua Goiás e os Bragas no Tabuleiro dos Martins.

Naquela época, morar na Fernandes Lima era o máximo dos status.

Durval Normande era casado com Dona Silvia , senhora fidalga, muito educada e seus filhos eram, os homens Júlio, Manoel, mais conhecido por Né, Zeca e Henrique, as mulheres Nizia, Rosa, Eunìce e Helvina.

Júlio e Né não estão mais entre nós.

Eram muito amigos de meus pais, pois minha mãe conhecia Durval , desde solteira em União dos Palmares.

Interessante é que Durval veio a ser Bisavô dos filhos de Ricardo Braga, que foi casado com uma filha de Né Normande.

Júlio, no futebol dos Perrelli, realizado na praia da Avenida aos domingos, tinha o apelido de canela de trilho, ai de quem levasse uma canelada dele, e Henrique de Kirí.

Lembro-me, apesar de que estava com apenas 8 anos de idade, na cheia de 1949, quando caiu a ponte sobre o Riacho Salgadinho, próxima a nossa casa, e a água chegou ao quintal de nossa casas, Kirí no cangote do empregado, com um cabo de vassoura na mão, matando as cobras de duas cabeças que apareciam.

Fui convidado, não recordo em que ano, a participar de um grupo de danças organizado por Dona Maria Magalhães, que promovia esses eventos, a fim de angariar fundos para obras de caridade.

Neste ano a dança era o Coco, e os ensaios no Clube Fenix .

Estávamos reunidos, mas ninguém sabia dançar coco, foi quando alguém lembrou de Durval Normande, e foi buscá-lo em sua casa no Farol, ele veio com a maior boa vontade, e nos ensinou a dançar, e fizemos uma grande e bonita apresentação.

Guila mais uma vez peço desculpas pela minha distração, acredito que me redimi.

Beijo no coração de todos e fiquem com Deus.

Paulo Ramalho, agosto 2011.

domingo, 7 de agosto de 2011

SOCORRINHO por Carlito

Idosos não perdem a memória, às vezes fica esquecido. O fascinante do ser humano é que detalhes de um passado mais distante ficam perpetuados em nossa mente. Consegui programar minha memória só para bons acontecimentos, só recordo coisas boas, as ruins, os fatos sinistros, apago-os ou coloco-os em um arquivo morto, para ser feliz.

Lembro bem quando eu era menino, ano da graça de 1947, tinha sete anos, morava na Avenida da Paz nº 1074. No último dia de novembro, minha mãe deu mais um presente para família, nasceu Socorrinho a caçula, a última de cinco filhos. Alguém saiu com ela nos braços para mostrá-la aos irmãos. Eu estava curioso ao ver a recém nascida chorando como se tivesse fome. Fiquei emocionado e feliz da vida, não sabia que era uma premonição. Aquela menina chorona ia tornar-se uma das figuras mais importantes de minha existência.

Nossa infância na praia da Avenida e no riacho Salgadinho foi de muita liberdade e alegria. Na aurora de minha vida, nos meus 12 anos queridos, eu percorria toda redondeza pescando ou pegando caranguejo. Meus pais criaram os filhos com sabedoria e generosidade, mas menino é malvado, Socorrinho devia ter quatro ou cinco anos, eu já quase rapaz, pegava caranguejo pelo casco, ele abria as patas enormes, maldosamente eu amedrontava, achegava o bicho brabo perto do rosto dos pivetes, Socorrinho foi a vítima número um. Até hoje ela tem pavor, fobia a caranguejo, nem sequer sabe o gosto de uma saborosa caranguejada no pirão, por minha culpa exclusiva.

Certo tempo fui para Escola Militar, peguei um trem em Maceió até o Recife de onde viajei para Fortaleza. Durante 12 horas viagem entre pequenos morros eu admirava os canaviais verdes em contraste com o azul do céu, vinham lembranças de minha praia, meus pais, meus irmãos e principalmente da caçula que eu já era apegado. Disfarçadamente eu chorava.

Perambulei 13 anos pelo Brasil sem nunca deixar de passar férias em Maceió. Certa vez Socorrinho me confidenciou que estava paquerando, me apresentou seu namorado Clailton, a partir desse dia ganhei outro irmão. Está gravada em minha mente a figura de Clailton na varanda de nossa casa, com um violão cantando: “Oh cachaça amiga, não há quem me diga que não tens valor... e de saudade eu morro, vem em meu SOCORRO mais outra lapada”. Minha afinidade é tanta com Socorrinho que Clailton costuma dizer que só tem ciúmes de mim e de Chico Buarque de quem Socorrinho é fã de carteirinha.

Em 1967, promovido a capitão, vim morar nas Alagoas. Nada mais queria em minha vida, solteiro, morando em minha casa com o carinho, casa e comida dos pais e uma Maceió bonita, festiva, que me encantou. Nessa época, dos irmãos, apenas Socorrinho estava ainda na casa do General e Dona Zeca. Foi uma fase das mais bonitas e alegres de minha existência. Socorrinho era minha companheira, minha amiga para todos cantos, festas, casamentos, Zinga Bar. Eu adorava paquerar suas amigas. Ela fazia não gostar, dizia estar preocupada que eu fizesse sujeira, mas no fundo eu sabia que minha irmã tinha maior orgulho de seu irmão.

Nunca tive desentendimento com Socorrinho. Aliás, tive uma única briga. Certa vez nós discutimos, não lembro o porquê. No outro dia ela não falou comigo, raiva mesmo, ranzinza. Eu pensei e percebi que ela tinha razão. Socorrinho não só me perdoou, como me abraçou emocionada quando ao entrar em seu quarto, uma surpresa: sua cama estava coberta de rosas. Foi a única maneira que encontrei para pedir desculpas.

Em 1970 me casei, logo depois foi ela. Socorrinho tornou-se um esteio na família. Sempre foi a primeira chegar nos problemas, nas dificuldades da família, nos piores momentos, na hora da morte, como também na hora da alegria. Ela herdou de Dona Zeca o amor às festas, à família, ao natal, ao ano novo. Sua casa sempre foi cheia, Clailton feito o General, apoiando. Vieram três filhos, os sobrinhos do Capitão, quatro netos para a alegria da Vovó.

Está fazendo 60 anos daquela cena gravada em minha mente, a menina nos braços não sei de quem, sendo mostrada para os irmãos. Desde aquele momento veio nossa bem querência, nossa cumplicidade, amizade, o apoio mútuo, até os dias de hoje. Socorrinho tornou-se importante em minha vida, a maior incentivadora quando comecei a escrever aos 61 anos. Devo-lhe muito de minha alegria, de meu jeito de ser feliz!

DONA ZECA - A ÚLTIMA DAS MATRIARCAS por Carlito

Se é que pode existir, foi um enterro bonito, seus amigos foram chorar junto com a gente. A missa de cânticos lindos e sublimes fez parecer que a senhora estava sendo levada para algum lugar etéreo, puro, elevado, deve ser o céu mesmo.

Tudo foi muito comovente e dolorido. Seus filhos não lhe deixaram um instante. Seus netos naquelas horas de dor mostraram como a avó querida vai fazer falta.

A turma dos serviços estava no cemitério, inconsolável. É difícil, nesses tempos, empregados terem tanta dedicação e carinho ao "patrão". Cecília lavadeira de tantas épocas, chegou nas últimas horas, chorava, urrava, foi de doer no fundo da gente.

Maceió estava em peso no Parque das Flores. Desde os mais humildes até o governador, aquele, que a senhora era apaixonado, Divaldo, sabe? E o mais bonito é que os que lá chegavam, não era só pela família, foram mesmo lhe reverenciar, a senhora era querida demais.

Meus amigos, a maioria seus afilhados, choravam pela mãe Zeca, como carinhosamente lhe chamavam e lembravam os tempos das festas na Silvério Jorge. Os grandes almoços, os perus roubados que eram cozinhados e acobertados pela senhora. A sua alegria, sua energia, sua irreverência, sua bondade, seu amor à vida, todos comentavam.

Principalmente sua felicidade, porque mamãe nestes seus tantos anos, 50, foram convividos com outra extraordinária criatura o seu Mário Lima. Foi muito amor e felicidade.

São poucas a criaturas neste mundo de Deus que teve uma vida tão intensa de ternura, de vitalidade e desprendimento. Sua simpatia fazia bem a quem lhe cercava. A senhora passava esta energia positiva. Filhos, netos e bisnetos cresceram, se criaram juntos a sua saia.

Afinal no fundo, no fundo, com todo sua bondade, sua tolerância, sua indulgência, a senhora foi uma grande matriarca, a última das matriarcas. Porque estes tempos novos jamais produzirão uma outra dona Zeca.

Hoje terça-feira, era e seu dia, (filhos e netos cumpriam ritual de 10 anos desde a morte do general. O grande almoço semanal da mesa redonda na sua casa. Aquela carapeba que só dona Zeca sabia fazer. Tudo acabou. Como a senhora vai fazer falta, e como dói. Mas tenha certeza, nós não vamos desagregar. Seus filhos serão unidos, seus netos amigos.

Escrevendo em forma de relato para senhora, é porque como todo mundo sabe, a senhora ainda não teve tempo de olhar aqui para baixo, deve estar curtindo de montão, o seu amado Mário nesses paraísos de Deus.

É isso aí, Dona Zeca, todos lhe choram, mas têm sempre uma lembrança carinhosa alegre e cheia de vida para curtir.

“Ah, minha adorada mãe...Se lhe contasse que sua imagem adornei com flores..Que suas flores foram minhas preces...Preces colhidas nos jardins das dores.”

Gazeta de Alagoas janeiro de 1993.